Pesquisar este blog

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Eu sou mulher e a provedora da relação (ou: a conta do Feminismo chegou - literalmente)

Abigail Pereira Aranha

"Eu sou a provedora da minha relação - e isto é complicado" é o título de um artigo de uma mulher, Heather Sundell, no Refinery29[1] (eu traduzi o artigo na postagem anterior[2]). Mulheres descobrindo o que é ser chefe de família como os avôs delas eram. Oh! Daqui a 10 anos, mulher que não paga as próprias contas será vista como vagabunda e veremos mulheres provedoras sendo denunciadas pelos maridos por violência doméstica. Hua, hua, hua, hua, hua!

Mas como não pensamos antes que este seria o resultado de 60% de mulheres nas universidades e de "políticas afirmativas" para mulheres no mercado de trabalho? Se uma mulher tiver o interesse de se casar (com homem), ela precisa cada vez mais se preparar para essa possibilidade, a de sustentar o marido. Ah, e sustentar os filhos também (com o próprio dinheiro).

Vai parecer que eu vou sair do assunto, mas peço a sua atenção para montar o quadro e entender uma outra questão que foi a que me inspirou a escrever sobre aquele artigo. Em um dos dias em que eu organizava essas ideias, eu estava na rua esperando um ônibus e vi uma mulher (que entrou em outro ônibus) com uma daquelas camisetas "the future is female" (o futuro é feminino). A madame é gorda (eu vou explicar daqui a pouco por que eu trouxe esse detalhe). Ela está solteira ou tem um relacionamento? Se ela tem um relacionamento estável (com um homem), que perfil de homem é esse que... ama uma mulher gorda que usa uma camiseta que diz que "o futuro é feminino"? Se essa mulher está solteira, que homem vai sequer se aproximar dela quando ela se interessar nisso, ainda mais se ela estiver com aquela camiseta nojenta? Dado que a moça é gorda, quem vendeu aquela camiseta sabia que o "futuro feminino" precisa de camisetas "plus size". Quantos empresários estão preparados, para dar um exemplo, para ter um supermercado que vende mais açúcar em pacotes de 2 kg que em pacotes de 5 kg? Parece estranha a pergunta? Em uma região onde as mulheres não tentam ser humildes ou simpáticas e cada vez mais homens estão de saco cheio disso, quantos casamentos vão acontecer e quantas residências vão ter mais de 3 pessoas? Ah, eu estava voltando de um supermercado e estava pensando nisso lá. Eu estava indo para mais um encontro com 4 amigos onde eu cozinho e depois eles me penetram de quatro e soltam esperma no meu rosto.

Eu vou aproveitar que eu mencionei rapidamente a minha vida de licenciosidade para chamar a atenção para outro ponto: para uma pessoa conservadora ou uma pessoa feminista, uma mulher oferecer a alguns homens qualquer coisa mais que uma amabilidade formal é se desvalorizar (para algumas mulheres feministas de esquerda, até isso é um insulto à dignidade). As mulheres feministas em geral também creem que a mulher "que fornica peca contra o seu próprio corpo" (1Co 6: 18). Por que um homem se casaria com uma mulher para quem é degradante não apenas parecer heterossexual, mas sequer ser amável com um homem? Mais do que isso, o que essa mulher pode esperar (merecidamente) desse homem? Ou melhor, que homem ela pode esperar conseguir? O que essa mulher precisará oferecer aos homens em geral, em um futuro próximo, quando quiser qualquer coisa mais que boa convivência ou mesmo isso? Para essa mulher, até quando se mostrar "gostosa" ou mesmo oferecer sexo vai ser suficiente para um homem sequer querer estar perto? É verdade que o contato com uma mulher é muito mais fácil para um homem de hoje do que foi para os avôs dele, e as expectativas para o sexo também podem ser melhores. E também é verdade que em outras gerações, os homens em geral tratavam a mulher frígida e "difícil" como uma mulher de mais valor e mais dignidade. Mas de quanto será a conta de abusar não só da heterossexualidade dos homens, da sua urbanidade também?

Mas o que me chamou a atenção quando eu vi aquele texto, e que eu gostaria que você observasse também, é que enquanto os feministas de esquerda e os feministas conservadores podem fazer os próprios discursos como mantras, as mulheres normais do mundo real dão mais importância ao que o Feminismo (ou o Conservadorismo) consegue na vida real das mulheres do povo de verdade, muitas vezes elas fazem uma análise com horizonte mental muito pouco extenso. Enquanto nós temos algo como aquele artigo da Heather Sundell publicado no Refinery29 e compartilhado pela Tristan Offit no Yahoo! Lifestyle[3], nós temos homens feministas enxergando assédio sexual em homens se aproximando de mulheres colegas de trabalho. Sim, algumas mulheres feministas também, mas mesmo o espaço que a parte mais louca do movimento feminista consegue é trabalho de homens que estavam lá antes. Mas quando eu digo "feminismo", não é só o feminismo de esquerda. Existe o feminismo conservador, que era feito para mulheres provincianas de beleza medíocre com horror a sexo, e agora tenta agradar as netas dessas mulheres que gostam dos paparicos modernos, mas insistem em continuar em uma igreja cristã tradicional (ou algo mais "moderno" com o mesmo nome). Os homens feministas conservadores enxergam estupros alimentados pela pornografia, pedofilia nas redes sociais, tráfico de mulheres na legalização da prostituição ou sexo de homens com crianças de 8 anos na Educação Sexual nas escolas. Por sinal, onde existem leis que dizem que deve ser aceito como prova se qualquer mulher disser que foi vítima de assédio sexual, estupro ou violência doméstica (por homem), isso é obra dos homens conservadores em geral.

Por exemplo, tivemos em fevereiro do ano passado aquele artigo de uma mulher sobre como é complicado ser uma mulher casada que é a provedora da casa; em junho, uma outra mulher, Lois M. Collins, publicou em um portal da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, o Deseret, um artigo intitulado "As esposas provedoras estão felizes?"[4]. Em janeiro de 2013, uma outra mulher, Hilary White, publicou no portal cristão Life Site News um artigo intitulado "Homens jovens desistindo do casamento: 'as mulheres não são mais mulheres'"[5]. Eu vou considerar só os títulos e você, lendo os textos, pode confirmar que eu não erro nos pontos fundamentais: as mulheres conservadoras abordam a crise de um modelo cujo fundamento e cuja força é a imposição política-cultural de suas próprias crenças dogmáticas; a mulher não tão conservadora, mesmo dentro do feminismo de esquerda, aborda problemas de algumas mulheres do povo de verdade.

Ah, mais um exemplo, só que mais genérico. Até a época dos nossos avós, qualquer mulher católico-protestante que só usava roupas recatadas e era um defunto na cama podia ser galanteada pelos homens da cidade onde morava apenas por ser bonita e recatada. Hoje, uma mulher grava vídeos no YouTube mostrando mais uma boa bunda ou um bom decote que qualquer bom conteúdo (eu posso dar nomes e você também), um homem ou faz um comentário capacho, ou xinga a mulher de "vadia" ou algo semelhante. Isso também acontece, de forma menos vulgar, com algumas mulheres formosas que se apresentam em vídeos com linha cristã conservadora, às vezes elas falam até contra o Feminismo (ou um puritanismo invertido a que elas dão esse nome). Aí, alguns homens aparecem nos comentários fazendo galanteios e outros homens atacam essas mulheres e esses primeiros homens, e entre esses últimos no Brasil, essas mulheres ganharam até um termo, "conservadia". Ah, e se essas mulheres antifeministas quiserem ganhar os homens, parece que até o sexo vai ser pouco (nem digo a sensualidade): já criaram as "sex dolls", que já estão sendo usadas até em alguns bordéis na Europa[6]. Eu estava comentando um texto sobre mulheres casadas com homens que ganham menos do que elas e parece que eu saí do assunto, mas não saí. Aqui eu mencionei indiretamente um homem conservador solteiro que tem sonhos eróticos não confessados com uma musa cristã conservadora, um rapaz não tão conservador que tem sonhos eróticos com uma garota youtuber... não tão conservadora, um homem que prefere procurar prostitutas e sexo casual que uma esposa e um homem que prefere acessar pornografia na internet. Em princípio, nenhum desses homens é mais fracassado ou infeliz que um homem casado que ainda tem mais escolaridade e salário que sua esposa que também é bem sucedida. Portanto, um homem que se casa com uma mulher com mais escolaridade e salário que ele precisa rebaixar as suas expectativas até em relação à vida. Não é questão de ser homem nem questão de sociedade "machista", eu que sou mulher teria vergonha de mim mesma se eu não ganhasse o dinheiro que eu gasto. Mas o problema (ou talvez não seja um problema, para quem odeia o LGBT-Feminismo) é que o tipo de homem que se permite essa opção é o perfil de homem que as mulheres vão ter para escolher um marido, se elas quiserem ter um. Os homens do nível delas de escolaridade e salário pra cima (que algumas vadias pensam até hoje que podem conseguir) estarão com cada vez mais probabilidade casados ou só interessados em sexo sem compromisso.

O meu destaque aqui não é diretamente as questões das mulheres em um ambiente de vitórias feministas. O ponto é como as mulheres cristãs tradicionalistas e especialmente os homens tradicionalistas e feministas estão mergulhados no que eles entendem como valorização da mulher e eles não percebem o quanto estão longe da realidade, do respeito e da atenção da mulher comum. Um exemplo grosseiro: um vereador (homem) faz uma lei para o metrô ter o "vagão rosa", aquele em que só mulheres podem entrar, em nome do combate ao assédio sexual e ao estupro; enquanto isso, as mulheres usuárias só se preocupam com os intervalos grandes e com a viagem em pé nos carros lotados, e é sorte de quem criou o "vagão rosa" que essas mulheres não se dão a preocupação de viajar em vagões diferentes daquele do vizinho homem ou do amigo gay do trabalho. Por tudo isso, a solução para todos os problemas e desconfortos provocados pelo feminismo de esquerda é mais fácil de ser trazida não por um grupo conservador, mas por uma onda moderada do feminismo de esquerda associada com as igrejas cristãs. Especialmente se o Movimento de Direitos Humanos dos Homens e Meninos e as comunidades masculinas antifeministas não colocarem os cristãos conservadores e os "libertarians" em posição secundária.

NOTAS E REFERÊNCIAS:

[1] "I'm The Breadwinner In My Relationship — And It's Complicated", Refinery29, 14 de fevereiro de 2019, https://www.refinery29.com/en-us/what-its-like-being-the-female-breadwinner.

[2] "Eu sou a provedora da minha relação - e isto é complicado", 09 de fevereiro de 2020, A Vez das Mulheres de Verdade, http://avezdasmulheres.blogspot.com/2020/02/eu-sou-provedora-da-minha-relacao.html; e A Vez dos Homens que Prestam, http://avezdoshomens.blogspot.com.br/2020/02/eu-sou-provedora-da-minha-relacao.html.

[3] "I'm The Breadwinner In My Relationship — And It's Complicated", Yahoo! Lifestyle, 14 de fevereiro de 2019, https://www.yahoo.com/lifestyle/m-breadwinner-relationship-complicated-120000809.html.

[4] "Are 'breadwinner' wives happy?", Deseret News, 04 de junho de 2019, https://www.deseret.com/2019/6/5/20674919/are-breadwinner-wives-happy.

[5] "Young men giving up on marriage: 'Women aren’t women anymore'", LifeSiteNews, 10 de janeiro de 2013, https://www.lifesitenews.com/news/young-men-giving-up-on-marriage-women-arent-women-anymore.

[6] Por exemplo: "Sex doll brothel opens in Paris for hundreds of randy punters who prefer romping with silicone models instead of real women", The Sun, 05 de outubro de 2018, https://www.thesun.co.uk/news/5455544/sex-doll-brothel-opens-paris-france-first/amp.

Texto original em português sem fotos e vídeos de putaria no A Vez das Mulheres de Verdade: "Eu sou mulher e a provedora da relação (ou: a conta do Feminismo chegou - literalmente)", https://avezdasmulheres.blogspot.com/2020/02/a-conta-do-feminismo-chegou-literalmente.html.
Texto original em português com fotos e vídeos de putaria no A Vez dos Homens que Prestam: "Eu sou mulher e a provedora da relação (ou: a conta do Feminismo chegou - literalmente)", https://avezdoshomens.blogspot.com/2020/02/a-conta-do-feminismo-chegou-literalmente.html.

Eu sou a provedora da minha relação - e isto é complicado

Heather Sundell

14 de fevereiro de 2019 às 10:00

Desde que me lembro, eu sou viciada em trabalho. Romanticamente, eu sempre fui quase exclusivamente atraída por artistas. Não deve ser surpresa para ninguém que eu tenha acabado sendo o ganha-pão do meu relacionamento.

Esse nem sempre foi o caso - mas agora meu marido, Jacob, é freelancer, enquanto meu trabalho assalariado como chefe de conteúdo de uma startup se tornou nossa principal fonte de renda e seguro de saúde. Quando nos casamos em 2017, a situação foi revertida. Eu estava trabalhando em casa como diretora de comunicações de uma agência remota, enquanto a carreira de Jacob como diretor criativo estava decolando, e ele estava me superando significativamente em salário pela primeira vez em nossos seis anos juntos. Mas o equilíbrio do poder financeiro é um pêndulo e, cinco meses depois, voltou na minha direção. Jacob decidiu deixar seu emprego na agência repentinamente devido a um ambiente de trabalho tóxico - sua chefe foi abruptamente dispensada sem motivo. Como eu não pude apoiar totalmente essa decisão? Ele estava infeliz, eu estava ganhando muito dinheiro para pagar nosso aluguel (felizmente razoável), e ele estava recusando trabalho freelance para a esquerda e para a direita em sua posição de tempo integral. Nós dois pensamos que seria uma transição fácil.

O que eu não esperava era que ele realmente não encontrasse trabalho por um tempo, e o ressentimento cresceu nos dois lados. Fiquei frustrada porque a casa estava uma bagunça quando chegava em casa do trabalho. Ele ficou chateado porque eu não conseguia ver o quanto ele estava tentando encontrar emprego. Fiquei zangada por ainda estar fazendo a maior parte das compras de supermercado e por não poder usar sapatos, mesmo que trabalhasse tanto. Ele estava se sentindo desvalorizado. Eu estava com ciúmes do tempo que ele tinha, porque eu estava arrebentando meu traseiro no escritório o dia todo, enquanto também participava de shows freelancers nas noites e nos fins de semana. Eu estava com medo de que, nos dias ruins do trabalho, estivesse presa no meu trabalho porque um de nós precisava de uma renda e um seguro de saúde estáveis, e essa responsabilidade recaía sobre mim. Embora meus sentimentos fossem válidos, eles nem sempre eram necessariamente justos. Afinal, tomamos a decisão juntos.

Isso é tudo para dizer, assumir o papel de ganhador principal durante o primeiro ano de nosso casamento tem sido um exercício interessante de comunicação, papéis familiares e muito para meu desgosto... matemática.

Obviamente, eu não sou a primeira mulher ganha-pão a lutar contra a realidade turbulenta de fazer o papel de provedor: um estudo da Pew Research de 2014 descobriu que as mulheres eram a única ou principal provedora financeira em quatro em cada dez famílias com crianças menores de 18 anos. No entanto, a cobertura da mídia levaria você a acreditar que esse tipo de relacionamento está condenado. Todos são rápidos em citar o estudo de 2013 que descobriu que em relacionamentos em que a mulher ganha mais que o homem, o casal faz menos sexo. No final do ano passado, Tucker Carlson atraiu o Twitter antes de afirmar que "há mais abuso de drogas e álcool em áreas onde as mulheres ganham mais que os homens". E em 2017, Ashley C. Ford escreveu um artigo para a Refinery29, onde ela pesquisou mais de 100 mulheres "millennials" sobre seu status de ganha-pão, muitas das quais expressaram sua infelicidade de serem colocadas no papel que consideravam estressante e pesado.

Eu tenho que acreditar que o status de ganha-pão é difícil para todos, independentemente do sexo. Mas eu aprendi é que é especialmente preocupante para mulheres heterossexuais. Mesmo quando mais de nós apoiamos financeiramente nossas famílias, esse não é realmente um tópico popular de conversa. Jacob e eu somos incrivelmente comunicativos sobre tudo e, no entanto, quando se tratava dessa nova dinâmica, frequentemente parecia que não estávamos falando a mesmo linguagem.

Sentindo-me frustrada e sozinha em meu novo papel como ganha-pão, eu queria saber mais. Foi por isso que entrevistei mais de 20 mulheres chefes de família, heterossexuais e homossexuais, de várias idades e lugares em suas vidas, para descobrir como exatamente elas gerenciam os desafios. Eu queria saber como elas lidam, se abraçam o manto, e como podemos avançar em direção a uma nova realidade em que todos - homens ou mulheres - podem se sentir bem com os papéis que assumem no casamento. De proprietários de empresas, diretores de contas e coordenadores de mídia social a professores universitários e escritores freelancers, as mulheres com quem conversei abrangeram uma ampla gama de setores, com uma coisa em comum: seu status de ganha-pão havia afetado drasticamente seus relacionamentos de formas que elas nunca imaginaram, boas e más, mas a maioria não teria outro jeito.

Enquanto todas elas compartilham uma variedade de frustrações e revestimentos de prata, uma coisa que é clara é que o velho ditado é verdadeiro: dinheiro é poder. E quando uma mulher assume o papel masculino tradicional de provedor, isso pode ser confuso - é difícil abalar as normas de gênero da sociedade. Temos a tendência de colocar essas relações sob o microscópio e examinar cada dinâmica. É quase como se nós super-exagerássemos os piores estereótipos sobre homens (veja todas as comédias que exibem idiotas adoráveis incapazes de colocar carga em u'a máquina de lavar) e mulheres (veja aquelas mesmas comédias com chatas arrogantes).

Eleanor*, uma empresária de 39 anos, culpa a "atitude de merda do marido em relação às tarefas domésticas" por sua educação, e ela não conecta seus conflitos sobre as responsabilidades domésticas à sua posição como principal ganhadora. De fato, fiquei um pouco surpresa ao descobrir que apenas um terço das mulheres que entrevistei indicou que as brigas por responsabilidades domésticas aumentavam juntamente com seus salários. Afinal, as mulheres normalmente assumem mais responsabilidades domésticas, independentemente de com quanto elas estão contribuindo financeiramente por causa das normas e expectativas da sociedade. De fato, quanto mais uma mulher ganha mais que o seu marido, menos tarefas domésticas ele realiza: observou-se que muitas ganha-pão assumem a maioria das responsabilidades domésticas, além de sua carga de trabalho profissional, para amenizar os sentimentos de emasculação de seus maridos.

"As mulheres conhecem as regras", diz Farnoosh Torabi, especialista em finanças pessoais e autora de She Makes More. "A casa é o nosso domínio se não estivermos trabalhando e faremos um bom trabalho. Para os homens, esse não é o instinto."

Isso faz sentido quando você considera que o estereótipo de mulheres cuidando de casas é reforçado nos filmes, na TV, em todos os comerciais de detergente para roupa e, provavelmente, até assistindo nossos pais interagirem. Quando os homens são colocados na mesma posição, eles não têm um plano a seguir instintivamente. Basta assistir Michael Keaton lutar para "se tornar a dona da casa" no clássico de 1983 Mr. Mom. Esse filme tem mais de 35 anos e, no entanto, não houve nenhuma atualização icônica desse tropo da cultura pop. A mídia feminina repete regularmente que as meninas não podem se tornar o que não podem ver. Mas isso também é verdade para os meninos.

Para as mulheres chefes de família que não estavam brigando por causa de louça suja, seus relacionamentos foram construídos com base no entendimento de que seus parceiros assumiriam ativamente responsabilidades não tradicionais - seja cuidado com crianças, limpeza ou apoio emocional - e seriam valorizados por essa contribuição.

Sara, 37, assistente jurídica, foi demitida ao mesmo tempo que o marido, mas conseguiu um novo emprego primeiro. Depois que ela deu à luz o primeiro filho, eles decidiram que fazia sentido o marido ficar em casa. "O mais importante foi confiar nele para assumir o papel de cuidador principal. Não faço o segundo turno em casa ou espero executar tudo enquanto meu marido apenas ajuda. Eu também não sou exigente sobre como ele faz as coisas, pai sábio. Eu me concentro na minha parte, deixo que ele faça sua parte e gosto de sair com meu bebê."

Mas Sara pode ser uma exceção. Mesmo que o status de ganha-pão faça com que as mulheres se sintam autorizadas a exigir mais dos parceiros em casa, normalmente nem sempre é tão uniforme, especialmente se houver crianças envolvidas. Enquanto a maioria dos pais de famílias que trabalham em dois empregos e em tempo integral afirma que certas responsabilidades são compartilhadas igualmente, cerca da metade diz que a mãe faz mais quando se trata de gerenciar os horários e atividades das crianças. (Por outro lado, um dos segredos de se tornar uma executiva é ter um marido disposto a ser o principal cuidador.)

Algumas das mulheres com quem falei acham que esses sentimentos de paridade podem ser alcançados alternando o status de ganha-pão durante toda a duração do relacionamento. Quando você está envolvido a longo prazo, a menos que tenha decidido papéis permanentes desde o início, faz sentido que o ganhador principal flutue ao longo dos anos à medida que a vida acontece.

"O saldo de quem ganha mais foi pra trás e pra frente em nosso relacionamento de mais de 20 anos. Neste ponto, não é um problema para nós", diz Jamie Beth, escritora e assistente administrativa de 42 anos.

"Nós meio que desligamos quem tem o 'bom emprego' (aquele que ganha dinheiro) e qual de nós faz a parte criativa por um tempo", diz Julie, 41, uma agente de talentos, descrevendo o dar e receber no casamento dela. "No momento, eu tenho uma empresa start-up e, no ano passado, ele teve um bom emprego, mas nos seis anos anteriores fui eu."

Mas havia outras mulheres que abraçavam sua ambição e não conseguiam imaginar outro modo de vida. Jane*, uma diretora criativa que entrevistei, descobriu que a única maneira de fazer seu relacionamento funcionar era rejeitando as normas. "Quando tentamos ter um relacionamento 'normal', falhamos miseravelmente. Mas, assim que começamos a ficar estranhos e a fazer o que queríamos, em vez do que era suposto que deveríamos fazer, as coisas ficaram cada vez melhores."

Foram histórias como as de Jane que eu achei mais úteis. Ser o ganha-pão é difícil, mas muitas dessas mulheres encontraram maneiras de fazer isso dar certo e, como resultado, seus relacionamentos prosperaram.

"De certa forma, isso coloca um microscópio sobre problemas que você talvez nunca tenha notado antes", diz Jennifer, 32 anos, comerciante. "É realmente ótimo ver esses problemas claramente e ter a oportunidade de sair deles. E se você o fizer, será mais forte do que nunca."

Como observa Martha, 33, uma profissional de marketing de biofarma, pode ser um presente se você tiver um parceiro que não seja ameaçado pela dinâmica e tiver um plano claro para que cada pessoa se sinta valorizada e produtiva. Ela descobriu que é mais confiante e gosta de gastar dinheiro sem precisar de permissão.

Parece que o verdadeiro segredo do sucesso como uma mulher ganha-pão é não deixar ninguém no relacionamento parecer acomodado. O que, sejamos honestos, deve ser o caso em todos os relacionamentos, independentemente de quem ganha mais. Toda contribuição é valiosa e ninguém quer sentir que seus esforços, sejam domésticos ou financeiros, contam pouco. Além disso, há algo verdadeiramente mágico em descobrir alguém que apóia suas ambições.

"Eu estou no meu auge profissional, fazendo e alcançando o que realmente sonhei que faria quando criança", compartilha Jane, diretora criativa. "E isso se fez possível pelo meu parceiro que literalmente está sempre lá para mim, substituindo silenciosamente a coleção de canecas vazias na minha mesa por uma fresca de La Croix quando estou em longas chamadas e me lembrando de ser uma pessoa."

Ainda assim, esse status de principal ganhador é assustador e vem com muita pressão. Eu tive momentos de me sentir presa, ressentida e sobrecarregada com uma responsabilidade que assumi sem realmente entender como isso me faria sentir. Mas isso também me fez me tornar mais forte, mais engenhosa e mais vocal em todas as partes da minha vida. Tenho orgulho de ter o poder de fornecer o apoio financeiro necessário quando minha família precisava.

Mesmo eu sendo uma viciada em trabalho autodiagnosticada, essa pode nem sempre ser a minha realidade. Mas, um dia quando não for, ficarei feliz em saber que é algo que sou mais do que capaz de fazer e que meu relacionamento pode suportar mudanças de equilíbrio e poder com algumas (ou muitas) conversas duras. Provavelmente também ficarei chateada por não poder usar meu status de ganha-pão para alavancar tanto a arrumação da cama.

*Os nomes foram alterados.

"I'm The Breadwinner In My Relationship — And It's Complicated", Refinery29, 14 de fevereiro de 2019, https://www.refinery29.com/en-us/what-its-like-being-the-female-breadwinner.

Comentários da tradutora

"Eu sou mulher e a provedora da relação (ou: a conta do Feminismo chegou - literalmente)". Versão sem fotos e vídeos de putaria no A Vez das Mulheres de Verdade: https://avezdasmulheres.blogspot.com/2020/02/a-conta-do-feminismo-chegou-literalmente.html. Versão com fotos e vídeos de putaria no A Vez dos Homens que Prestam: https://avezdoshomens.blogspot.com/2020/02/a-conta-do-feminismo-chegou-literalmente.html.

Abigail Pereira Aranha

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Depreciar a retidão é exaltar a iniquidade (um pouco sobre Diego Rox e os "isentões")

Abigail Pereira Aranha

Isso o Bolsonaro não conta! (Diego Rox, trechos)[1]

[08:11 a 08:47] Uns bolsopetistas foram me marcar, foram marcar meu nome numa foto que o Bolsonaro postou[2] um dia desses aí, deve ter uns 3, 4 dias, não sei, dizendo que sancionou a Lei Romeo, que é o nome do filho do [apresentador Marcos] Mion. [Mostra a captura de tela da postagem no Instagram] E o post diz o seguinte: "Lei Romeo Mion/Espectro Autista. Sancionada hoje a Lei" tal "que cria Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista". "A referida carteira é gratuita e garante prioridade nas áreas de saúde, educação e assistência social". Aí ele foi lá e marcou a Michele com o sorrisão ali e tal, nossa, que vitória do governo.

[08:47 a 09:22] [Mostra a captura de tela de artigo da página da Câmara dos Deputados][3] Agora, o que você não sabe sobre isso é que esse projeto é da deputada Rejane Dias, do PT. E por que que ela luta por isso? Por que o PT se preocupa com as minorias, nossa? Não. O PT nunca se preocupou com minorias. Só que ela se preocupa com minorias porque ela é mãe de autista. Então ela luta por isso. O mãe vem antes de qualquer partido. E só quem tem filhos com deficiência, seja qualquer outra, ou alguém próximo da família que acaba dedicando a vida pra lutar por isso. O resto não se importa, até porque desconhece. Né?

[09:22 a 10:11] O nome dela tá no post do presidente? Eu vou perguntar pra você. Não, não tá. Ela reclamou sobre isso? Ela fez... tal, não, o PT "exigimos que fale, que"...? Não. Sabe por quê? Porque notoriedade nisso não importa, o importante é ser feito. A luta dela é genuína. Então, se escreveu ou não escreveu, dane-se. Mas notoriedade essa que o presidente fez questão de querer ter, postando foto como se fosse algo criado por ele. Não, é exatamente isso! Porque quem não sabe, quem não entende, como... a maioria das pessoas acha que a coisa é do governo. Nossa, ele sancionou, caramba! Nossa, mas esse... é só você ler os comentários. Mas esse governo aí, nossa, se preocupa mesmo, tá incluindo, e tal. E fazem isso de propósito, é um marketing de propósito, enganam de propósito.

[11:14 a 11:23] O que o Bolsonaro fez foi oportunismo em cima de autistas, foi... foi coisa de político, aquele lance de atravessar velhinho na rua, fazer carinho em cachorro.

[11:37 a 11:45] Segundo, que não resolve os problemas. Então, tá fazendo um marketing ali, tal, como se estivesse ajudando de fato, né.

[11:52 a 12:16] E ele ter sancionado não é mais que a obrigação como político, como de quem vive do dinheiro público, e ele vive há 30 anos assim. OK? É obrigação dele como político e o mínimo a se fazer como ser humano. Quem não aprovar um negócio desse, uma... algo que seja pró-deficiente, né, não importa o que seja, no mínimo, né, ele não é gente.

[12:16 a 12:30] Então, coloca na sua cabeça, seja Bolsonaro ou qualquer político que seja, ou seja qualquer agente do Estado, se tratando de policial, bombeiro ou o que seja: obrigação não é mérito, é obrigação, tá ali exercendo a função pra isso.

Meus comentários

O ponto aqui não é só sobre Jair Bolsonaro, nem só sobre política, nem só sobre o Brasil. É sobre grandeza de espírito. Ou, mais ainda, sobre pobreza de espírito.

A antipatia aparentemente repentina e incondicional contra Jair Bolsonaro de vários vlogueiros brasileiros que o apoiavam parece bem ilustrada aqui. Por exemplo, o Diego Rox diz que Bolsonaro tinha obrigação, como político e como ser humano, de aprovar uma certa lei menos de um minuto depois de dizer que a mesma lei, aprovada, era ineficaz.

Os méritos do governo Jair Bolsonaro não são desprezíveis, mas o presidente continua de pé, com grandes chances de completar os 4 anos de mandato, por falta de uma oposição com capacidade para derrubá-lo. Essa oposição é uma legião de bandidos aloprados que age como quem perdeu um produto de crime, não uma eleição. Na parte de "bandidos aloprados", estou sendo literal: o crime menos grave é difamação por pessoas que usam o nome de jornalistas. Contra pessoas da família ou da equipe de Jair Bolsonaro, ou até eleitores mais entusiastas, nós tivemos difamação, calúnia, denunciação caluniosa, fraude processual, ataque de "hacker" e até agressão física. A mesma oposição também diz representar o povo, mas você que é uma pessoa do povo de verdade sabe quantas mulheres sequer mencionam os assuntos do movimento feminista, ou afrodescendentes do Movimento Negro, ou homossexuais do Movimento LGBT. Mesmo com domínio das universidades e da comunicação de massa fora da internet, essa oposição se mostra com uma notória pobreza intelectual e uma estupidez cada vez maior. Mas 8 anos antes, era Dilma Rousseff quem estava de pé por falta de uma oposição qualificada (Lula, 4 anos antes, mais ainda, mesmo com o escândalo do Mensalão). O que tínhamos contra uma "poste" do Lula era uma oposição liberal-conservadora cuja formação cultural, intelectual e acadêmica foi conseguida com muito estudo e com muitas viagens ao exterior pagos com a herança do avô. Essa oposição de antes é o apoio ao governo de hoje, e vice-versa.

Depois do fim do tempo do PT na Presidência da República, o Brasil mostrou a pobreza intelectual e de espírito nos dois lados. Ou melhor, três lados (já vou explicar). Vou pular o lado dos petistas. O lado liberal-conservador chegou ao governo Bolsonaro acreditando que ele foi eleito porque o povo aprecia as ideias que só são levadas a sério por mulheres provincianas sexofóbicas e herdeiros mal acostumados de coronéis latifundiários. Bastou a Rainha Louca perder o mandato para aparecerem, como vindos de uma Caixa de Pandora, os defensores de um novo golpe militar de 1964[4], os monarquistas e até o grupo da Terra Plana.

Depois de esquemas de corrupção inéditos na história do Brasil e de mandatos presidenciais cujos méritos reais foram de aproveitar heranças de antecessores, a própria sobrevivência política ou mesmo formal do PT vem de um pacto do Brasil praticamente inteiro em torno da pequenez de espírito e de intelecto. E aqui entra também o terceiro lado: o grupo que se diz acima da divisão entre esquerda e direita, ou mesmo da própria política. É o que chamamos hoje de "isentões" mais o que os marxistas sempre chamaram de "alienados". Aqui eu volto à fala do Diego Rox. Essas pessoas que se dizem contra a política ou contra uma coisa confusa que chamam de "o Estado", por que elas só se manifestaram publicamente depois da queda de popularidade da Dilma? Porque uma legião de eleitores da Dilma se deu mal e não conseguia assumir, pelo menos publicamente, sua culpa pessoal. Eram aquelas pessoas que viam as eleições como um ou dois domingos perdidos a cada dois anos, que seriam melhor aproveitados na frente de uma televisão ou numa mesa na calçada numa frente de bar. Quando o governo Dilma Rousseff trouxe o crescimento zero para suas vidas em 2014, essas pessoas começaram a se interessar por política. Ou melhor, se interessar em falar mal do PT.

Mas (não me lembro de onde eu ouvi isso) nenhuma ação é mais nobre do que a intenção que a gera. Assim, uma fala contra a falta de honradez na política que vem de um ex-cúmplice mal sucedido da corrupção do governo anterior não é mais do que inveja vinda de um hipócrita mal sucedido, e ainda pode ter por trás um certo ódio à virtude. Volto aqui à fala do Diego Rox: uma coisa boa foi feita, Jair Bolsonaro não passa de um político que não fez mais do que a obrigação, mas uma deputada do mesmo partido de Lula e Dilma Rousseff não é sequer uma política, é u'a mãe dedicada a uma boa causa e para quem "notoriedade nisso não importa, o importante é ser feito". Depreciar o justo é glorificar o ímpio. Não digo que é o caso da pessoa da deputada Rejane Dias, mesmo que eu acredite que ela estar no PT não é bom sinal. Mas você já ouviu alguém dizer que Lula ou Dilma Rousseff apenas cumpriram obrigações em serem honestos e cuidarem dos pobres em programas sociais?

Você pode descobrir neste blogue o elogio que eu fiz à então senadora pelo PCdoB do Amazonas Vanessa Grazziotin pelo projeto de lei PLS 652/2015 que "acrescenta dispositivos à Consolidação das Leis do Trabalho" "para estabelecer licença-paternidade de 120 dias". E à mesma senadora pelo projeto de lei PLS 514/2015 que "garante o direito à amamentação em público, transformando em crime a sua violação, que também ensejará indenização por danos morais à vítima". E ao então deputado pelo PSOL do Rio de Janeiro Jean Wyllys pelo projeto de lei PL 4211/2012 para regulamentação da prostituição. Você vai perceber que eu reconheci méritos de uma pessoa sem a intenção de depreciar uma outra.

Isso me lembrou um caso que um leitor compartilhou comigo no Facebook: "Estrela adulta é banida do Instagram por salvar Coalas"[5]. "A subsidiária do Facebook, Instagram, demonstrou seu compromisso de tornar o mundo um lugar melhor, proibindo uma camgirl que arrecadou US $ 1 milhão para instituições de caridade que combatem os efeitos dos recentes incêndios na Austrália, oferecendo fotos nuas para aqueles que doaram US $ 10". "A exibicionista on-line de 20 anos, cujo nome verdadeiro é Kaylen Ward e usa o apelido de 'The Naked Philanthropist', (...) relatou que ela foi deserdada por sua família e que sua conta foi banida por 'conteúdo sexualmente sugestivo', apesar de não publicar fotos nuas no próprio instagram". Leitores compartilham comigo com frequência no Facebook alguma notícia com algo relacionado a nudez ou sexo. Eles veem e se lembram de mim. Não só porque eu tenho um blogue com pornografia e eu digo a minha posição sobre sexualidade. Também é porque mesmo o que eu digo da minha vida de licenciosidade está dentro de uma proposta moral e intelectual. Mas o que isso tem a ver com o caso que eu estava comentando? A desqualificação de uma pessoa (ou das suas ideias ou das suas ações) por picuinhas; ou o contrário, a supervalorização por outras picuinhas. Por exemplo, a mulher é ou foi profissional do sexo, é razoável ela desde perder uma vaga de trabalho até ser assassinada. Ou o contrário, se a mulher dá sinais visíveis de que odeia sexo, é razoável ela ser vista, por exemplo, no ambiente de trabalho como melhor profissional que um homem ou uma mulher bonita. No meu caso, eu tenho sorte hoje de que ninguém ataca o que eu escrevo dizendo que o meu blogue tem pornografia e eu tive sexo com mais de 300 homens. Porque hoje, quem discorda de mim e vê as coisas "indecentes" não lê o que eu escrevo (em 2014, algumas feministas liam).

Eu escrevi em 2010 sobre a eleição da Dilma Rousseff.[6] Onde estavam aqueles "isentões", alienados e traidores em 2014?

A oposição a Jair Bolsonaro que diz também abominar o PT e parece dizer a verdade nos traz pelo menos duas lições, e não só para o Brasil. A primeira é que pessoas que não compreendem bem o que ouvem, leem, falam ou escrevem não podem ter atos de grandeza moral. A segunda é que pessoas que foram covardes para enfrentar um mal ou mesmo que colaboraram com ele pessoalmente também podem trabalhar contra ele ou os seus efeitos, mas precisam, como disse João Batista a alguns fariseus e saduceus, produzir frutos dignos de arrependimento (Mt 3: 8). Se foi possível em séculos distantes um analfabeto fazer um ato nobre, uma pessoa medíocre e analfabeta funcional de hoje com culpas não confessadas só pode fazer desastres em cima do uso de palavras nobres mal entendidas, contra quem tem a grandeza que lhe falta.

NOTAS E REFERÊNCIAS:

[1] "Isso o Bolsonaro não conta!", Diego Rox Oficial, 12 de janeiro de 2020, https://www.youtube.com/watch?v=X3oDKfC7uxs.

[2] jairmessiasbolsonaro, 08 de janeiro de 2020, https://www.instagram.com/p/B7ExaqfBLII.

[3] "Lei que cria carteira de identificação da pessoa autista é sancionada", Portal da Câmara dos Deputados, 09 de janeiro de 2020, https://www.camara.leg.br/noticias/630372-lei-que-cria-carteira-de-identificacao-da-pessoa-autista-e-sancionada.

[4] "Defesa da Intervenção Militar é provincianismo mais burrice mais golpismo", 06 de fevereiro de 2018, http://avezdasmulheres.blogspot.com/2018/02/defesa-da-intervencao-militar-e.html.

[5] "Estrela adulta é banida do Instagram por salvar Coalas", Tokusatsu Mil Grau, 11 de janeiro de 2020, https://tokusatsumilgrau.blogspot.com/2020/01/estrela-adulta-e-banida-do-instagram.html.

[6] "Dilma Rousseff eleita presidente: em 2010, quem ganhou foi a gentalha", 18 de novembro de 2010, A Vez das Mulheres de Verdade, http://avezdasmulheres.blogspot.com/2010/11/dilma-rousseff-eleita-presidente-em.html; e A Vez dos Homens que Prestam, https://avezdoshomens.blogspot.com/2010/11/dilma-rousseff-eleita-presidente-em.html.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Rainhas montadas em cavaleiros brancos

Abigail Pereira Aranha

Quando a lei que dava à mulher os direitos de votar e de ter cargos políticos foi aprovada, quantas mulheres do Congresso votaram a favor? Que piada ruim! Está certo, se mulheres não podiam votar nem ter cargo político, não existiam mulheres no Congresso. Mas com isso, eu chamo a sua atenção para uma coisa um pouco menos óbvia: uma pessoa não pode chegar a uma posição de poder sem ter alguma forma de poder pessoal ou a ajuda de alguém que já está nesta posição ou acima.

Como começou o Feminismo? De acordo com as mulheres feministas, um grupo de mulheres se levantou contra a opressão de uma sociedade que por séculos colocava as mulheres em uma posição inferior. De acordo com os conservadores, um grupo de lésbicas malucas se levantou por um poder diabólico para destruir o Paraíso na Terra que existia por séculos. Os conservadores não sabem explicar como esse grupo de lésbicas malucas chegou a algum lugar (mas eu sei, e é o que eu vou fazer aqui), mas se as mulheres feministas lutassem, hoje ou no século XX, contra uma sociedade como elas dizem que é aquela em que elas vivem, a história do Feminismo seria a preparação para algum dia dos anos 1960 que terminou com algumas lésbicas com ossos quebrados.

Do outro lado, qual foi a oposição masculina que o Feminismo teve? No máximo, alguma reação burra de quem consegue dizer (e acreditar) que as mulheres feministas são lésbicas gordas repulsivas e elas têm vida promíscua com homens (nenhum homem teria interesse sexual por uma mulher feminista mesmo se ela quisesse homens, mas ela consegue vários homens, entendeu?). Os homens conservadores (e algumas mulheres) também tentam provar que o Feminismo é prejudicial para a mulher e o bom é o Conservadorismo, que oferece a ela tudo que o Feminismo promete e muito mais. Aqui eu chego ao ponto: entre os homens, tratar as mulheres de forma especial é a regra geral.

Várias mulheres feministas publicaram livros defendendo a redução da população masculina a algo como 10% da população total, mas nós nunca vimos um livro inteiro defendendo a violência contra a mulher. É isso o que chamam de machismo. Por sinal, quando a palavra "machismo" teve um significado positivo? E por que "machismo" é depreciação da mulher, mas "feminismo" é a defesa da igualdade entre homens e mulheres, incluindo, de acordo com algumas mulheres feministas, ações em favor dos homens? Como regra geral, quando os homens não dão às mulheres o respeito normal entre duas pessoas, eles depreciam a própria masculinidade. Hoje que "feminismo" não é mais uma coisa chique, nós podemos ouvir homens dizendo "eu sou contra o machismo e o feminismo". Mas enquanto o Feminismo é um movimento e uma ideia, o machismo não é. Portanto, este homem iguala o mau entendimento de o que são atitudes masculinas ao feminismo radical. O que ele defende é o Conservadorismo ou um feminismo de esquerda elegante. Nos dois casos, o ser homem só tem sentido e elegância quando está a serviço da mulher (a própria liderança masculina é para dar proteção ou conforto a ela).

Eu dizia que os homens em geral depreciam a própria masculinidade e você pode ter achado estranho. A primeira coisa que eu tinha em mente é a ideia da masculinidade que só tem sentido para servir à mulher, como expliquei há pouco. A segunda coisa é o desprezo da heterossexualidade masculina pelo próprio homem. O "autocontrole" desse homem na presença de alguma senhora feia e desagradável é uma imagem disso. Um crime de homem contra homem porque a vítima fez sexo com uma mulher da família do autor é uma outra imagem. E onde existe proibição ou censura contra seminudez, pornografia ou prostituição, quem faz as ações práticas, inclusive prisões, são homens. Mas eles não são apenas policiais que cumprem leis e ordens? Não é só a eles que eu me refiro. Os superiores hierárquicos também são homens. Se o que é relacionado a sexo é crime, quem fez a lei foi um homem e a maioria que aprovou também é de homens. Certo, isso é regra geral. As mulheres que estão nessas posições explicam a regra: é para isso que os homens existem, para ajudar que as mulheres cheguem aos céus quando elas acharem conveniente ir além do ambiente doméstico.

Pelo menos desde a implantação do Cristianismo, os homens também têm protegido as mulheres com aversão a sexo de qualquer sinal de sexo ou de mulheres que parecem não ter aversão a sexo. Por isso um homem que agride um homem que se aproxima de uma filha dele por supostas intenções sexuais pode agredir essa mesma filha se ela tiver um namorado. Eu já experimentei tentativas de agressão de mulheres porque eu conversei ou transei com o marido ou um filho adolescente dela, mas mais vezes eu experimentei homens que fizeram isso por alguma mulher. Mas quando um grupo de mulheres falou em liberdade sexual, alguns homens as apoiaram, nem sempre com a intenção ter a sua parte nisso; e os homens contrários a esse grupo queriam, em última análise, apoiar as mulheres que não gostam de sexo.

E se um homem vilipendia a própria masculinidade, ele deprecia a sua própria individualidade humana. Esse homem se contém pra não falar perto de mulheres (ou entidades bizarras que levam esse nome) qualquer coisa que seja ou possa ser entendida como relacionada a sexo; ele faz por uma mulher algo que não faria por um homem; ele atrapalha a sexualidade de todos os outros homens que puder e renuncia a sua própria. A troco de quê? De nada. Nada além de agradar o universo feminino.

Homens pelo fim da violência contra as mulheres. Fonte: Emerson Reis NL, 06 de dezembro de 2019 às 09:04, www.facebook.com/emersonreis2014/posts/10157116133382955

"Homens pelo fim da violência contra as mulheres", você pode ter visto essa campanha por aí. Assim como você também viu mulheres defendendo os Direitos Humanos dos Homens. E talvez você também tenha visto mulheres feministas tentando explicar como o Feminismo também pode ajudar os homens. As comunidades masculinas antifeministas usam o termo "cavaleiro branco" para o homem disposto a defender uma mulher só por ser mulher. Os "homens pelo fim da violência contra as mulheres" são "cavaleiros brancos", homens como eles tratam as mulheres como rainhas e, quando podem, até fazem que elas sejam algo perto disso literalmente. Eles fazem isso por nada, às vezes até pra receber o mal pelo bem. Mas as mulheres feministas e as mulheres conservadoras antifeministas não consideram que tomar no cu é princípio moral superior (para muitas, é degradante no sentido figurado e no sentido literal). É bom ganhar o próprio dinheiro, mas um bom marido que ganha mais pode fazer falta. É bom contar problemas para um marido ou um amigo homem, mas é preocupante saber que ele pode se suicidar antes pelos próprios problemas. Os homens conservadores seguem o caminho que sempre seguiram. As mulheres menos estúpidas querem voltar desse caminho novo, mesmo que não exatamente para a idealização que os homens conservadores fazem da época em que os pais nasceram.

Mais uma coisa que os homens e as mulheres antifeministas podem ter notado: por que tantas vezes um homem feminista faz uma bajulação vergonhosa ao universo feminino e ele não se corrige quando vê que as mulheres em geral não o veem como uma espécie de "amigo da mulher" e muitas delas até o reprovam? Melhor: por que esse homem nem sabe que foi essa a reação do universo feminino? Isso se aplica ao homem feminista militante que usa um vestido em u'a manifestação contra a violência contra a mulher, mas também é o caso de um vereador que cria uma lei para que todos os assentos dos ônibus urbanos sejam preferenciais para as mulheres (sim, isso aconteceu em Fortaleza). Mas isso não é só porque esse homem reverencia a mulher sem esperar nada em troca. Quando esse homem não observa o "feedback" dos seus atos nem que seja pra pensar "como eu posso me rebaixar mais?", o modelo mental de ginolatria é dogmático e automático o suficiente para não depender da resposta do mundo real externo, mesmo daquela coletividade feminina que ele quer agradar.

Mas se é verdade que a mulher típica de hoje tornou-se desinteressante, insalubre e até perigosa não para casamento, mas para contato próximo, mas tem uma autoestima tão grande quanto a pobreza de espírito; alguns homens só estão em comunidades antifeministas como Real, MGTOW ou Red Pill porque, por isso mesmo, não encontraram uma bela mulher frígida provinciana disposta a se casar virgem com um falso moralista de pau pequeno. Esses homens idolatram a época em que os pais nasceram. Eles de coração trocariam o que chamam de perdição moderna por um passado em que mulheres não saíam à rua desacompanhadas e em que qualquer foto de uma mulher que só mostra os braços e as pernas era tão clandestina quanto uma droga ilícita. Naquele tempo, era até mais provável um homem morrer por acidente de trabalho ou por falsa acusação de assédio sexual. Mas como eu já vi homens conservadores dizendo em 2019, a vida de um homem não pertence a ele e o casamento não é para um homem ser feliz. Quando alguns homens heterossexuais cristãos foram rejeitados pelas mulheres porque o seu tradicionalismo não lhes era atraente, eles perceberam que todos menos eles têm direito a alguma coisa; só então eles começaram a defender os seus próprios direitos.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

O Brasil não pode ser salvo, só superado

Abigail Pereira Aranha

Já é otimismo falar em "restauração da alta cultura", nas palavras de Olavo de Carvalho, em um país onde a maioria dos universitários é analfabeta funcional. Isso sem entrar na questão de quando essa "alta cultura" existiu e como ela era. E também sem entrar na questão de como o processo de destruição dessa coisa gloriosa pôde acontecer por 20 ou 30 anos sem protestos visíveis de quem a conheceu pessoalmente na adolescência.

Vamos admitir que um governo federal tenha um plano eficaz para erradicar o analfabetismo funcional. Vamos admitir que, neste caso, esse governo não tenha um único analfabeto funcional nos 3 níveis mais altos. O plano não será executável. Por exemplo: nas coordenações das secretarias de Educação dos estados ou nas reitorias das universidades, dirão "querem tirar os negros e as mulheres das universidades". Porque a avaliação de um candidato a vaga em universidade não terá outro critério além do conhecimento. Daí, para que um candidato analfabeto funcional não entre, acabam as políticas afirmativas no processo seletivo; para que este candidato, se entrar, não seja diplomado, acabam as políticas afirmativas também na assistência estudantil. Mas estes que protestam não são necessariamente militantes de esquerda em uma artimanha contra o governo. Eles podem ser apenas pessoas que acreditam de verdade no que estão dizendo.

Mas vamos admitir que seja formada uma elite intelectual para uma guerra cultural pela restauração da alta cultura. Estou misturando termos do Olavo de Carvalho com a "guerra cultural" dos "olavetes". E vamos admitir que essa elite intelectual participe da vida universitária e ganhe os debates em universidades cheias de esquerdistas e analfabetos funcionais. Temos um outro problema: a única plateia possível além da própria elite intelectual e além dos próprios professores, estudantes e ex-alunos das universidades é a parte da população num nível ainda mais baixo que a classe universitária pelo menos em escolaridade.

Se o analfabeto funcional é alguém que não entende bem o que lê e representa a maioria inclusive das pessoas de formação universitária, o Brasil já tem só na parte intelectual uma situação onde é quase inviável alguém entender ou explicar qualquer coisa, e não só em tópicos de política. Juntando a parte ética e a parte cultural que são medíocres, já é impraticável qualquer projeto de nação acima da pobreza de espírito.

Os governos Lula e Dilma Rousseff foram os de mais corrupção, estupidez e recompensa à mediocridade da história da República. O que tivemos depois disso? O fenômeno do "isentão", a pessoa que se diz acima da divisão entre esquerda e direita, ou até da própria política, mas nunca se manifestou naquela época e acredita que o problema do Brasil é que nem todos gostam do PT. Portanto, alguém que junta a amoralidade com a burrice. A autocrítica não só está acima da capacidade moral e mental do povo brasileiro como um todo, mas está acima do que ele poderia suportar mesmo se não estivesse.

O Brasil chegou ao ponto em que quem nasceu antes de 1985 vai ter de lutar não para ter um país melhor, mas para ter o país que conheceu no tempo em que não discutia política. Mas isso não pode ser feito com um movimento de volta ao passado, como o Brasil Império, o governo militar ou algum tempo em que as mulheres, mesmo quando pensavam que era pecado ter um orgasmo na vida, ainda tinham uma aparência civilizada. Não apenas porque aquele cenário é inviável hoje, é principalmente porque nada daquilo é impeditivo daquilo que temos hoje que queremos mudar. Se fosse, não teríamos ido de uma coisa à outra. Na esquerda, qualquer secundarista sabe que a História não dá saltos, ainda mais em visão de mundo de uma geração inteira em relação à anterior. Só os conservadores pensam que mudar o mundo pra pior é tão fácil quanto a vontade de um ou dois multimilionários patrocinando três ou quatro líderes revolucionários saídos do anonimato.

Ainda sobre os conservadores, nós ainda temos o problema de que mesmo que seja verdade que os progressistas são os culpados por uma degeneração moral sociopolítica do Brasil (e realmente é), os próprios conservadores não fazem mais do que representar uma outra forma de burrice. Em geral, eles não imaginam coisas como moral, inteligência e maturidade como compatíveis com uma vida sexual ativa ou com a manifestação de heterossexualidade. Bom, na parte da vida sexual ativa, eles até podem compartilhar vídeos e postagens de redes sociais de homossexuais de direita, mas vários leitores meus já me disseram que não se sentem à vontade para compartilhar textos meus com amigos conservadores "por causa da sacanagem". Aqueles homossexuais de direita "quebram a narrativa" do Movimento LGBT e defendem o "livre mercado", então eles ajudam a juntar os preconceitos de netos de condenados pela Justiça do Trabalho com a ideia de que essa é a única forma possível de enfrentamento ou mesmo de discordância do Socialismo. Os conservadores aceitam o risco de divulgar mulheres antifeministas bonitas e descobrir depois que elas eram pobres de conteúdo ou de caráter, e dizer que elas se aproveitaram da beleza e às vezes da sensualidade para ganhar notoriedade; mas eles não têm tanto entusiasmo para divulgar escritos antifeministas mais substanciosos de mulheres licenciosas como eu ou de profissionais do sexo como a Yasmin Mineira ou a Mercedes Carrera. O máximo que o eixo do PT tem de oposição é um grupo que quer "quebrar a narrativa" deles sem quebrar os erros da própria.

A burrice, o preconceito, a inveja ou a repressão sexual podem ser coletivos, de uma cidade ou de um país. A formação do grupo social pode até ser um instrumento para favorecer os vícios pessoais dos indivíduos. No lado contrário, a inteligência e a virtude, e mais ainda descobertas técnico-científicas ou intelectuais, são em boa parte méritos de indivíduos ou de pequenos grupos de pessoas. Por exemplo, um Louis Pasteur com uma pequena equipe pode descobrir microorganismos patogênicos e vacinas enquanto países inteiros acreditam que as doenças têm origem sobrenatural, mas não vice-versa.

Mesmo que o Brasil ainda seja melhor que dezenas de países, o patriotismo é uma atitude (ou um sentimento) dispensável. Mesmo antes de termos maioria de semianalfabetos sem caráter nos postos decisivos, o Brasil não tinha muito que mostrar de honroso como nação (pressuposto que uma nação possa dar motivo de orgulho ao cidadão em vez de vice-versa). Se mesmo assim precisarmos ver o Brasil como a nossa casa, nós não temos o dever de consertar as besteiras de quem elegeu o PT 4 vezes. Assim, as pessoas com alguma grandeza que nasceram no Brasil podem se ver como parte e representante não da nação brasileira, mas da decência humana.

sábado, 21 de dezembro de 2019

A Sociedade dos Garotos - parte 8: sou um homem antifeminista e não defendo mulher nenhuma, exceto as da minha família

Abigail Pereira Aranha

Eu vi alguns comentários de rapazes antifeministas nos últimos 3 meses como este: "Defendo sim. As mulheres da minha família: mãe, esposa, irmãs. As outras? Q se f...!". O problema em um comentário como esse é que boa parte do antifeminismo deste homem está perdida, e o que sobra é essencialmente revolta de um rapaz interiorano católico-protestante do século XIX contra a rejeição sexual das moças alfabetizadas da cidade grande do século XXI.

E o rapaz se acha um guerreiro contra o Feminismo quando defende apenas as mulheres da própria família. Rapaz, vamos à Bíblia. Por que Simeão e Levi exterminaram os siquemitas? Gn 34. Por que Potifar fez José do Egito ser preso? Gn 39: 7 a 20. Por que Absalão mandou matar Amnon? 2Sm 13: 1 a 29.

O Feminismo surgiu onde e porque ele foi viável, não porque ele tinha a necessidade que o movimento diz ter. O Ativismo de Direitos Humanos dos Homens e, recentemente, o antifeminismo conservador feminino (na verdade, um feminismo conservador contra o feminismo de esquerda), esses sim surgiram pelas necessidades que afirmam. Se estão certos o movimento dos homens sobre o ginocentrismo e o antifeminismo conservador feminino sobre a dominância do feminismo esquerdista anticristão, é coerente que a "mainstream media" só lhes dê espaços esporádicos a contragosto ou com más intenções. Do outro lado, o feminismo de esquerda está destruído como ideia sã quando uma senhora sem feminilidade fala que o Brasil é machista e assassino de mulheres em um programa de domingo à tarde na Rede Globo. Mas não é improvável para a maioria dos homens ter o pensamento de que uma prova de que os homens acham aceitável agredir mulheres sem motivo é uma mulher com pouca visibilidade no Facebook dizer que falsas denúncias de violência existem (isso aconteceu comigo). Assim como o pensamento de que um homem que reage fisicamente a uma agressão física de uma mulher fez uma agressão injustificável contra uma musa frágil e angelical. Assim como o pensamento de que campanhas governamentais e de organizações privadas contra a violência contra a mulher existem e são veiculadas nos maiores veículos de comunicação de massa do país porque a sociedade acha essa violência aceitável. Isso acontece porque os nossos padrões de pensamento podem sobrepujar as inferências lógicas dos dados da observação direta principalmente quando temos preguiça ou medo suficiente para entender uma projeção de burrice e preconceito sobre dados reais como se fosse a visão direta da própria realidade.

Um homem defender as mulheres da família é um homem fazer aquilo para o que a família foi feita. Mais: isso é, segundo o que ele aprendeu, um homem fazer aquilo para que O HOMEM existe. E onde ele aprendeu isso? A televisão é de meados do século XX. O movimento feminista e o movimento socialista são de meados do século XIX. Séculos antes disso, tivemos aqueles casos bíblicos que eu lembrei. Se você não crê na Bíblia (eu mesma sou ateia), você ainda crê que aqueles casos foram gravados no primeiro milênio antes de Cristo; e você crê que as ideias da Bíblia são a visão de mundo da época e do lugar em que a Bíblia foi escrita.

Você ouvirá por aí que a mulher só começou a ser respeitada depois do Cristianismo. Mas a própria Bíblia cita pelo menos duas divindades femininas pré-cristãs: a Rainha dos Céus, dos babilônios, em Jr 44: 15 a 19 e Diana, dos gregos, em At 19: 24 a 41. Mas isso é mais que uma lenda de provincianos ufanistas desinformados. Isso é um exemplo de que quando você acredita que nasceu para lutar contra um mal, como os homens criados em uma família cristã acreditam que nasceram para proteger as mulheres dos perigos e dos desconfortos, você pode lutar mesmo quando o mal não existe.

Por que muitos homens defendem a pena de morte ou mesmo a execução extralegal para crimes sexuais de homens contra mulheres se estes não são crimes contra a vida? E aquele homem antifeminista "só defendo uma mulher se ela for da minha família", ele seria prudente considerando a possibilidade de essa mulher estar fazendo uma falsa acusação? Ou ele iria atrás do acusado pronto para ser um novo Potifar ou um novo assassino de Emmett Till? Mas naquele tempo em que homens matavam ou morriam para defender esposas, mães ou meio-irmãs, a proteção se invertia quando elas tinham vida sexual fora do casamento por iniciativa própria: Lv 21: 9 e Dt 22: 13 a 24. Se eu tivesse nascido naquela época, eu não chegaria a 309 homens (que inclusive era mais que os homens da população de algumas cidades). Melhoramos muito, mas nos mesmos Estados Unidos onde nasceram tanto o Feminismo quanto as reações masculinas a ele, já houve proposta de que uma mulher que tenha camisinhas na bolsa seja presa por prostituição, que lá é crime. Por quê? A família judaico-cristã tradicional não foi criada apenas para proteger a integridade física das mulheres em perigos reais e para sustentá-las, também foi feita para protegê-las da heterossexualidade masculina. Por uma certa confusão mental induzida por este modelo, os homens encarregados desta proteção passaram a tratar sua própria heterossexualidade e a dos outros homens como desprezível, clandestina e criminosa.

Mas vários homens de comunidades antifeministas já cometeram um ato falho: eles disseram que não adianta ser um homem do estilo antigo para uma mulher moderna. Eles confessam que as mulheres mudam e rejeitam coisas arcaicas à medida em que a sociedade progride, enquanto eles mesmos só não continuam iguais porque isso é inviável hoje. Mas essa "mulher moderna" é apenas a jovem entre uns 14 e 30 anos com beleza pelo menos 6/10 que não é cristã tradicional fervorosa ou uma mulher mais velha ou mais feia, às vezes religiosa, que segue ideias lesbofeministas. Mulheres com rosto e corpo semimasculinos, desconfortáveis de presença, geralmente cristãs idosas ou de meia-idade, esses homens não as criticam e até mesmo têm um respeito moderado por elas, especialmente quando elas pregam contra uma não-castidade fictícia ou aumentada de alguma mulher que tem a beleza e o sucesso que elas gostariam de ter. Essa é a mulher-tipo das próprias mães ou avós desses homens.

O meio conservador não tem nem no seu círculo mais culto duas noções que, na esquerda, não faltam nem entre os secundaristas: a História não dá saltos e o futuro é resultado das ações (ou falta delas) do passado e do presente. Não é surpreendente encontrar um homem antifeminista conservador que pensa que o Feminismo começou com um alvoroço de lésbicas malucas na década de 1960. Não por acaso, os conservadores querem defender a família para combater o esquerdismo em geral e o Feminismo em particular sem saber por que este último explodiu quando a maioria da população do país ainda era católico-protestante. E sem associar as famílias tradicionais de antes do século XX ao chamado "cavaleiro branco", que é o homem que defende qualquer mulher só por ser mulher.

domingo, 15 de dezembro de 2019

Três níveis abaixo da mentira

Abigail Pereira Aranha

Existe um nível intelectual e até de dignidade humana mais baixo que a vida em torno da defesa da mentira? Sim, e é um nível mais baixo que crer sinceramente na mentira como se fosse verdade.

Uma região de nível regular de desenvolvimento para os padrões de um país do Terceiro Mundo tem uma vantagem em termos intelectuais, culturais, morais e até psiquiátricos: deixar mais visíveis coisas desprezíveis que a feiura, a baixa escolaridade, a velhice, a doença ou o fracasso socioeconômico podem deixar mais feias. Vantagem se você tiver, além de integridade mental, as condições para não ser oprimido ou levado você mesmo para a miséria geral, como seu próprio dinheiro, sua própria casa ou contato físico com áreas geográficas melhores.

A defesa da mentira exige pelo menos três coisas: conhecimento da verdade, conhecimento das pessoas para quem a mentira vai ser dita e um resultado prático pretendido. Portanto, a defesa de uma mentira exige uma presença no mundo real com alguma inteligência.

Mas até a mentira organizada está acima do nível mental normal das populações dos países e das regiões de nível moral e cultural baixo (e onde os índices socioeconômicos pobres costumam ser apenas consequência), especialmente onde representantes da mediocridade geral já estiveram ou ainda estão nos cargos políticos formais. Nesses lugares, um sem-número de vigaristas deveram ou ainda devem a uma corrente espúria de política e pensamento específica não apenas um status social, mas até a possibilidade de ter um emprego. Mas um número muito maior de pessoas do povo devem a essa mentira desde alguma possibilidade para um dia-a-dia menos miserável (inclusive economicamente) até a fuga do encontro humilhante com algo superior mesmo quando a mentira que apoiam é causa notória da sua própria pobreza.

O primeiro nível abaixo da vida em torno da mentira é o ódio à verdade e à grandeza. Não é mentira compulsiva. É transformar o que é nobre, justo ou bonito em como se fosse um desafeto pessoal. Isso também não chega a ser inveja das pessoas com grandeza de espírito. O invejoso tem desejo ou apreciação pelo que o invejado tem, e a pessoa neste nível não chega ao ponto nem de considerar a verdade ou a grandeza de uma pessoa como algo respeitável.

O segundo nível abaixo da vida em torno da mentira é a guerra ao mundo real. Porque a guerra à grandeza foi perdida. Aqui, o próprio mundo real é um problema em si. Pelo que podemos ver na Bíblia, o próprio Diabo ainda estaria neste nível, já que ele quer mudar a criação de Deus para alguma outra coisa no seu próprio estilo. Mas para isso, ele ainda precisa agir dentro do mundo real. A parte má da militância socialista funcional está neste nível também. Mas ainda há um nível em que nem eles chegam.

O terceiro nível abaixo da vida em torno da mentira é a guerra à sanidade mental. A guerra contra o mundo real foi perdida. Resta a essa pessoa atacar a sensatez, a inteligência, o senso de proporções e o senso do ridículo. A pessoa pode tentar fazer isso em pessoas sob sua influência, em especial crianças dependentes, mas faz isso em primeiro lugar em si mesma. A pessoa se torna doente mental no sentido técnico. Mas isso não significa que seja uma pessoa inofensiva, porque essa pessoa, dentro da doença mental e moral, ataca o mundo real. Uma mulher desequilibrada que agride fisicamente e quebra objetos em uma discussão estúpida é um exemplo desse nível.

Por exemplo, uma lésbica começa com a mentira de uma injustiça contra a homossexualidade feminina, vai para o primeiro nível com uma aversão aos homens e às mulheres heterossexuais, para o segundo nível com a guerra contra a visão predominante da heterossexualidade como biologicamente normal (ela rebaixa o fato biológico a um fato sociocultural que, mesmo reconhecido, pode ser trabalhado) e para o terceiro nível com a declaração de que ela mesma, visualmente e comportamentalmente repulsiva, é uma mulher poderosa e sexualmente desejável.

A vida nacional brasileira em geral desde a eleição de Lula para a Presidência da República é um exemplo desses três níveis. Também é um sinal de que mesmo que a imagem do terceiro nível seja uma periferia deprimente de residências de pessoas feias e fracassadas, uma comunidade como essa tem uma importância sociopolítica que não pode ser ignorada. Especialmente quando políticas como o sistema de cotas sociorraciais e o voto dos analfabetos podem introduzir a pobreza de espírito onde é mais desejável que ela não esteja. Lula foi reeleito depois da denúncia do Mensalão com ainda mais votos que para o primeiro mandato e conquistou ainda mais votos para uma irrelevância chamada Dilma Rousseff porque naquela altura, milhões de pessoas passaram a dever suas vidas socioeconômicas, desde um bom cargo no serviço público até um benefício do Bolsa Família, ao sistema político-administrativo do governo PT. As universidades, a imprensa, a produção artística-cultural, o serviço público e mesmo grandes empresas privadas se aproximaram do povo no sentido pejorativo, no sentido da representatividade do medíocre. Isso realmente só podia ser feito por pessoas que já estavam em posições de poder ou decisão, para interesses pessoais, grupais ou ideológicos. Mas a base popular existiu e foi importante, o suficiente para fazer toda a tragédia, pelo menos no começo e por enquanto, através dos meios normais de uma democracia formal. E como comprovaram as vitórias eleitorais do PT depois das denúncias do Mensalão e do Petrolão (esquemas feitos, portanto, enquanto o partido não estava dedicado a fazer um governo formidável, como a crise posterior confirmou), uma nação que está nesses três níveis abaixo da mentira pode continuar ou se aprofundar nesse processo de degradação inclusive ou talvez principalmente quando paga caro pela guerra contra a verdade e a grandeza até mesmo nas partes, digamos, menos intelectuais do seu cotidiano.

O problema que eu descrevo aqui também acontece nas alas políticas liberal e conservadora. Também acontece na comunidade cristã tradicional. Também acontece no Primeiro Mundo. Mas a esquerda da década de 2010 especialmente no Brasil e nos Estados Unidos, e mais ainda as populações alienadas influenciadas ou favorecidas por essa esquerda, ajudam a nos mostrar esse problema de uma forma visual impressionante. Por exemplo, o perfil no Facebook de uma típica mulher feminista ou cristã de hoje mostra um não dar-se a obrigação de merecer respeito que uma mulher de meados do século XX ainda se dava, mesmo quando ela era semianalfabeta, psiquiatricamente instável e simpatizante da violência policial-jurídica contra ateus e mulheres profissionais do sexo.

Talvez você tenha notado, mas digo aqui mais diretamente: o Brasil em geral ainda tem que melhorar muito no sentido clínico (nem é no sentido intelectual) para que uma pessoa intelectualmente qualificada possa entrar em um debate intelectual e correr o risco de encontrar no mínimo um trapaceiro. Por sinal, foi um erro meu quando pensei, desde 2006, que qualquer exposição de ideias feita por uma garota desconhecida geraria debates ou pelo menos atrairia atenção de um número significativo de pessoas desde que fosse razoavelmente lúcida. O trabalho só não foi perdido porque eu o deixei na internet e ele foi achado por outros anônimos aqui e ali que estavam tão sedentos de ver manifestações de integridade mental quanto eu mesma. Bom, alguns rapazes procuravam putaria e me descobriram, mas gostar de licenciosidade (na teoria e na prática) também significa uma certa integridade moral e mental.

Eu ainda estou tentando entender como enfrentar este problema, mas quatro coisas eu entendi. 1) o nível a ser confrontado é sempre o último, porque a derrota em um nível leva ao nível mais baixo. 2) para cada pessoa com integridade moral e mental, confrontar pessoas no terceiro nível no contexto nacional, no contexto regional ou mesmo na internet é essencialmente o mesmo que confrontar pessoas no mesmo nível no ambiente próximo no mundo físico. 3) esse confronto envolve aumento de poder pessoal, em especial quando a pessoa em questão é da própria família (e lembro que poder pessoal é autonomia sobre a própria vida no sentido individual, e isso inclui a capacidade de se livrar do poder negativo de outras pessoas). 4) visto que fazer a própria presença desagradável faz parte do poder de ação limitado dessas pessoas, o confronto envolve bom humor e ridicularização dessas pessoas no nível rasteiro da presença delas no mundo físico, e não no nível de conversa sã e inteligente com pessoas mentalmente saudáveis.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

AddToAny