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quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

A guerra nas bolhas - parte 1: a fantasia de enfermeira de uma atriz da Globo

Abigail Pereira Aranha

1) Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo: a fantasia de enfermeira incentiva a sexualização, é inadmissível que continue sendo tolerada[01]

A enfermagem é uma profissão, não uma fantasia. COREN-SP (Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo).

Fantasias de enfermeira desvalorizam o profissionalismo da enfermagem

A enfermagem é uma profissão que exige conhecimentos técnicos, anos de estudo e muito empenho e dedicação em seu cotidiano. Além disso, por ser uma categoria predominantemente feminina, com mais de 80% de mulheres, sofre os impactos das desigualdades de gênero, o que inclui episódios de violência e assédio.

Por esses e muitos outros motivos, é inadmissível que a fantasia de enfermeira, utilizada em carnavais, festas de halloween e sátiras continue sendo tolerada pela sociedade, sobretudo por formadores de opinião.

O tema já foi alvo de intervenções do Coren-SP por diversas vezes, como no episódio em que as atrizes Giovanna Ewbank e Ingrid Guimarães humildemente se retrataram por terem se apropriado da imagem da profissão com conotação sexual. Deparamos-nos nas recentes celebrações de Halloween com a atriz @brunamarquezine Bruna Marquezine fantasiada do que a mídia chamou de “enfermeira sexy”. Também com postagem de influenciadoras como Cátia Damasceno, que fez uma enquete para que os seguidores escolhessem sobre a fantasia de mulher gata ou “enfermeira bem sexy; e Thais Massa que se fantasiou como tal.

Repudiamos veementemente essa conduta, pois ela incentiva a sexualização de uma categoria que há décadas luta por valorização e respeito. São trabalhadoras que enfrentam sucessivas jornadas de trabalho, em seus lares e no cotidiano profissional e que não merecem ou devem ser estereotipadas dessa forma.

O Coren-SP defende que todo o humor e diversão são válidos desde que não prejudiquem ou provoquem qualquer impacto negativo na vida do próximo. Por isso faz um apelo à sociedade e aos formadores de opinião: respeitem e valorizem as mulheres da enfermagem.

2) Introdução ao ponto central e mais alguns comentários

Você que conhece o meu trabalho já estava pensando que eu ia defender a liberação heterossexual? Bom, você estava certo(a). Mas apesar de o meu primeiro pensamento ser o de condenar o melindre sexofóbico de quem escreveu essa nota e de quem gostou, eu observei um outro problema e esse vai ser o ponto principal aqui. A questão do sexo e da sexualidade heterossexuais também é afetada por essa questão que vai ser o ponto principal, vou explicar depois. O ponto a que eu gostaria de chamar a sua atenção é o que eu vou chamar de "guerra nas bolhas", que é a fragmentação da comunidade nacional seguida de rixas aparentemente fratricidas dentro de alguns fragmentos. Eu digo "comunidade nacional" sem me limitar ao meu país, o Brasil. O problema é mundial e é melhor observável no nível nacional. O que as pessoas de uma nação têm em comum? Uma língua escrita e falada, talvez ao mesmo tempo que algumas línguas secundárias. Mas mesmo em países de praticamente uma única língua, como o Brasil e os Estados Unidos, essa língua não funciona muito bem como coisa em comum, como vou explicar mais adiante. Eu percebi a "guerra nas bolhas" no caso da Bruna Marquezine porque me lembrei de que ela é progressista e observei que aqui ela está sendo atacada por outros progressistas, menos de 2 meses depois de participar do coro "fora, Bolsonaro"[02].

Você imaginou que a presidência do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo caiu nas mãos de uma lésbica maluca? Não, o presidente do Coren-SP é um homem, James Francisco dos Santos. A vice-presidência está com uma mulher, a professora Érica Chagas Araújo.[03] E pela foto que você também pode ver na página do conselho[04], ela parece até uma professora simpática de pré-escola.

Érica Chagas Araújo, vice-presidente do COREN-SP (Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo), gestão 2021-2023.

Diretoria 2021-2023 do COREN-SP (Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo).

Na foto acima[05], o presidente é o de terno preto e gravata amarelada, à esquerda atrás da vice.

3) A pré-humanização da língua pátria

Para uma pessoa com integridade mental, o mundo real externo é referência do mundo emocional-subjetivo e do mundo verbal-escrito. E não vice-versa. Quem confunde o mundo emocional-subjetivo com o mundo real externo ou, pior ainda, tenta fazer o mundo emocional-subjetivo como referência do mundo real externo, essa pessoa não chega sequer a ser uma egocêntrica, é uma doente mental no sentido clínico. Quem tem um mundo verbal-escrito com uma associação pobre entre as palavras e os objetos do mundo real externo a que devia se referir é semianalfabeto.

Dizer que tivemos no Brasil "a animalização da linguagem", como é o título de um artigo do prof. Olavo de Carvalho de 2013[06], é uma ofensa aos gatos e aos cachorros; e também aos lobos, que são mencionados no artigo junto com os cachorros. Quem tem um gato ou um cachorro sabe que ele entende alguns gestos e até algumas palavras, e ele também se comunica com os seus humanos com sons e gestos. Vou dar uma citação rápida sobre os cães de Pavlov pra explicar o problema.

Os reflexos condicionados foram descobertos por Ivan Pavlov. Ele era um fisiólogo russo. (...)

A pesquisa inicialmente iria medir a produção de saliva de cães, pela inserção de itens comestíveis e não comestíveis. Durante o experimento, ele percebeu que após algum tempo, os cães começavam a salivar quando seus assistentes adentravam na sala. Descobriu assim, o reflexo condicionado.

(...) O som da campainha (estímulo neutro) era apresentado simultaneamente ou logo antes a apresentação da comida (estímulo incondicionado). Os dois estímulos (neutro e incondicionado) eram associados juntos.

Após algumas tentativas, ao apresentar o som, mesmo que sem a apresentação da comida, era eliciada a salivação.[07]

Perto de um cidadão típico do Brasil e de outros países, os cães de Pavlov eram um seminário de Filosofia. Porque esses ainda conseguiam associar um elemento sonoro a outro elemento do mundo físico.

O que nós podemos ver ao redor do mundo na chamada pandemia da CoViD-19, e já era mais caricato no Brasil, é um quadro generalizado de histeria mais semianalfabetismo. Para o cidadão comum, o mundo real não é referência nem para o vocabulário, nem para a leitura, nem para a escrita, nem para a fala (ouvida ou emitida), nem para o universo emocional-subjetivo. O que devia ser uma comunicação entre compatriotas no idioma nativo pode ser um desastre de reações emocionais e especulações de "entrelinhas" por quem não entendeu uma ou duas linhas. Existem duas linguagens brutalmente diferentes que parecem indistinguíveis, uma língua feita para seres humanos (em que palavras e outros elementos apontam para objetos do mundo real ou da própria linguagem) e outra, com quase todo o vocabulário em comum, de gatilhos emocionais, expressão emocional-subjetiva, descrição de rotinas maçantes, trapaça e reconhecimento tribal. Ah, já ia me esquecendo: ensinar a língua culta nas escolas do Brasil como se fosse padrão já é um sacrilégio chamado "preconceito linguístico"[08].

Essa destruição da linguagem associada com violência contra a integridade mental do cidadão comum pode ser vista nas questões fictícias como racismo, homofobia ou imperialismo estadunidense, mas é mais notória na questão sexual.

A desconexão entre a linguagem e o mundo real, junto com o uso da linguagem menos para associação a esse mundo real que para o extravasamento do mundo emocional-subjetivo, também é uma desconexão entre as pessoas que parecem falar a mesma língua. A direita e a esquerda na política já deixaram de ser ideias diferentes para serem linguagens diferentes, sectarismos intelectuais e vocabulários exclusivos de duas tribos que não se comunicam. Direita e esquerda já lutaram uma contra a outra, hoje dão o nome da antiga adversária a projeções inversas e preconceitos delas mesmas. Daí vem a "guerra nas bolhas". Chamo a atenção para que não são guerras separadas cada uma em uma bolha.

4) A guerra nas bolhas

Eu introduzi essa exposição com um rebuliço de militantes progressistas contra uma companheira de luta, ou pelo menos uma simpatizante. Esse caso pelo menos chegou aos jornais, mesmo que os maiores jornais do país sejam cada vez menos lidos (o que também tem a ver com o assunto). Mas esse caso tinha quase tudo para passar despercebido do público geral. Os conservadores podem ser provincianos e dogmáticos, mas o que a esquerda fala ou escreve parece que sai do versificador do romance "1984" do George Orwell[09].

Mas a questão da guerra nas bolhas não fica só no que o público geral entende como política, aquela coisa distante inclusive geograficamente. Por sinal, a questão é como a própria política, onde, em países como o Brasil ou os Estados Unidos, ninguém consegue se eleger sem o apoio de uma parte visível do eleitorado ou a repulsa de uma parte visível do eleitorado a um candidato adversário, mesmo que, nos dois casos, nem sempre exista uma cultura político-ideológica popularizada.

Os grupos, depois de perderem o mundo real como referência, também deixam de perceber se as suas ações são eficazes no mundo real, incluído o público externo que seria o beneficiário.

Daí, voltando ao caso da Bruna Marquezine, o Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo recebe nos comentários uma série de reprimendas de profissionais que dizem que o conselho não dá a questões sérias da classe profissional a atenção que deu à fantasia de "enfermeira sexy".[10]

A postagem teve mais de 19 mil comentários. “Mais tolerância e menos censura”, escreveu um seguidor da página. “Sinceramente, não vejo isso como desvalorização, desvalorização mesmo é o salário da categoria, e pelo jeito isso já nem é mais o foco”, disse outro.

E não é por acaso que a presidência que lança essa nota seja de um homem: a visão dele está distorcida pelo LGBT-Feminismo. E nem é questão do chamado "lugar de fala". O "lugar de fala" é mais um exemplo do isolamento social, porque é Argumentum Ad Hominem contra os de fora e Falácia do Apelo à Autoridade a favor dos de dentro. Mas aqui, temos mais um exemplo do homem feminista, de como ele pode ter uma desconexão com a realidade pior que a da mulher lésbica, mesmo (e principalmente) quando ele é bem intencionado.

Uma outra coisa que me chamou a atenção foi o meu próprio alcance, mas isso bem antes desse caso. Eu estou com esse trabalho antifeminista desde 2006, eu tive algumas poucas leitoras lesbofeministas em cerca de 2008 a 2012. A grande referência LGBT-feminista (sem duplo sentido) Lola Aronovich disse, acho que em 2011: "eu já conhecia o blog racista, misógino e homofóbico da Abigail". Eu já achei em 2010 uma chamada pra me denunciar à Polícia Federal, de uma leitora feminista. Eu vi comentários de outras feministas que conheceram o blogue A Vez dos Homens que Prestam e ficaram horrorizadas com a pornografia, em torno de 2011. Mas a militância feminista hoje caiu até em relação a esse nível de 2011. As mulheres feministas ignoram as mulheres não-feministas e antifeministas tanto quanto vice-versa.

5) O povo como bolhas

Mas os homens e as mulheres da população geral não conseguem seguir em vidas comuns com empregos comuns sem dar atenção aos assuntos políticos, geopolíticos e sociopolíticos, mesmo que ninguém da militância de esquerda use as mesmas linhas do transporte público que eles. Porque essa população geral também está se tornando uma série de bolhas. Bolhas de famílias, de bairros, de cidades, de locais de trabalho. Há poucas conversas no Brasil sobre assuntos de nível acima de obras públicas locais, e dessas, poucas que vale a pena ouvir. Mas ao mesmo tempo, essa série de bolhas é isolada de quem tem poder de decisão. Não faz muito efeito que muitas pessoas da população geral não acreditem na imprensa, mesmo o jornal local, porque os empresários e os políticos geralmente acreditam.

A falta de um espaço comum no mundo real mesmo para pessoas da mesma cidade tira da língua nativa aquele aspecto de unificação popular. A falta de interesses em comum, de valores em comum e mais ainda de questões intelectuais em comum só deixa a linguagem como meio de comunicação e expressão no nível da rotina diária (no máximo). Qualquer uso da linguagem mais elevado, mesmo por vigaristas da política nacional, é, para essas pessoas, complexo e desinteressante. Mas se a língua nativa desumanizada ainda puder ser usada para expressões emocionais-subjetivas, para discutir porciúnculas locais e para brigas de vizinhanças pobres, a integridade da língua acima deste nível será uma questão dos interesses de quem tem poder e habilidade para usá-la a seu favor. Quem entende e diz que isso é coisa dos "poderosos" ou dos "donos do mundo" já faz esse uso depauperado da linguagem. Porque esse rebaixamento da língua nativa engole a cultura de praticamente todo o empresariado, praticamente todos os executivos, praticamente todo o alto escalão do serviço público, de quase toda a classe política e mais ainda a de qualquer simplório que conseguiu comprar alguns imóveis. Alguém usa a língua nativa rebaixada para guiar esse povo todo como bonecos. Então, quem são os poderosos? Por exemplo, nós vemos donos de supermercados que não têm sacolas plásticas nas suas lojas pra proteger tartarugas marinhas. Se você mora no interior do seu país (não escrevo só para leitores brasileiros), já imaginou como uma sacola ou uma garrafa de plástico saiu do depósito de lixo da sua cidade e chegou no mar? Agora, com a gripe chinesa, nós temos um artigo de abril do ano passado com o título "Digitalização é a chave para a reinvenção do comércio pós-Covid"[11]. Quem viu notícias ou "hoaxes" sobre o certificado digital de vacinação da CoViD-19, no ano passado ou no começo deste ano, viu que o certificado não foi feito para a COVID, mas a COVID para o certificado. Mas quem do nível socioeconômico de chefe de seção pra cima percebeu isso? Mas isso não acontece só com o coronavírus, é com a vida normal inteira.

6) A sexualidade e a guerra nas bolhas

Uma coisa é que eu nunca entendi qual a graça da fantasia sexual com enfermeiras. Eu já fiz várias brincadeiras com os amigos, mas eu nunca tive essa ideia nem algum deles me pediu (e já foram 322 rapazes). Outra coisa seria se eu não percebesse o que eu expliquei aqui.

Mas por falar em assédio, sexualização, etc, aqui temos mais uma bolha. Ou melhor, duas: a dos homens e a das mulheres. A luta contra "o assédio", "o estupro", "a objetificação" está fazendo a mulher que tem algum grau de atratividade não dar motivos para um homem se aproximar dela, e a que não tem dar menos ainda. A desconexão da fala com o mundo real faz os homens em geral combaterem os crimes sexuais (de homem contra mulher) justamente enquanto os contatos de homens com mulheres são, para os homens, mais juridicamente perigosos e mais desestimulantes. Aí, quando o número de casamentos diminui, o número de divórcios aumenta e nós mal conhecemos alguém com 30 anos ou menos que tem os pais casados, as mulheres conservadoras colocam a culpa disso no Feminismo e as mulheres feministas moderadas, nas feministas radicais. Mas isso não é culpa das feministas. Desde quando o ódio à heterossexualidade masculina é "respeito" à mulher? Desde quando o sexo sem ou fora do casamento é caso de polícia (ou de crime)? Já era assim e nossos avós nem ouviram falar de Feminismo. Já era assim e o Feminismo não existia nem como termo, que foi escrito pela primeira vez por Charles Fourier na primeira metade do século XIX.

Mas qual a surpresa de o termo "Feminismo" ter sido cunhado por um homem? Qual a surpresa de existirem homens que fazem coisas concretas pelo LGBT-Feminismo, mesmo que muitas mulheres feministas duvidem desses homens? A doutrina feminista não explica a própria existência do movimento feminista.

Agora eu volto à questão da sexualidade. Vou contar um caso de quando eu tinha 14 anos. Eu estava num ônibus urbano, e enquanto eu ia me sentar, um passageiro homem esbarrou as mãos nos meus seios sem querer. Ele ficou muito embaraçado, me pediu desculpas com medo e eu, rapidamente, disse que estava tudo bem, eu peguei as mãos dele e disse que ele podia se acalmar. E enquanto eu estava com as mãos dele nas minhas, eu perguntei se ele aproveitou o acidente. E o meu pai já estava dentro do ônibus dois pontos antes, ele me perguntou o que aconteceu porque não viu a cena na hora e eu expliquei: "nada de mais, o homem só esbarrou a mão nos meus seios". Ele deve ter pensado: "e você me diz isso com essa tranquilidade?". Os passageiros me olharam como quem diz "já está na prostituição tão cedo?". Eu e esse passageiro nos encontramos várias vezes no ônibus depois disso, nos sentamos lado a lado várias vezes, conversamos na viagem.

Os homens estão evitando as mulheres menos do que as mulheres se fazem ser evitadas. O grande motivo, ainda podemos ver no dia-a-dia, é que os homens ainda vêem a mulher nos termos do Conservadorismo ou do LGBT-Feminismo. Tanto homens conservadores quanto homens feministas vêem um mundo de homens tarados e de mulheres vítimas da sexualização ou, pior ainda, mulheres que se fazem objetos sexuais. Temos mulheres que se acham acima da mediocridade por pensarem que ser agradável é humilhação da mulher, e homens que se acham fortes e também acima da mediocridade por resistirem a uma promiscuidade feminina que não existe.

Mas os filhos dos homens que glorificavam mulher louca e desagradável 30 anos atrás têm, hoje, que glorificar mãe solteira. A filha da mulher que tinha orgulho de ser desejada 30 anos atrás tem, hoje, orgulho de afastar os homens porque é bem resolvida. Aí os homens feministas e os tradicionalistas atacam os homens que fogem do casamento, enquanto as mulheres que querem casamento tradicional atacam as mulheres feministas. Porque o mundo real sempre vence.

NOTAS E REFERÊNCIAS:

[01] corensaopaulo, 02 de novembro de 2021, https://www.instagram.com/p/CVyEux0PCG3

[02] "Bruna Marquezine pede 'Fora Bolsonaro' em dia de manifestações", UOL TV e Famosos, 07 de setembro de 2021, https://tvefamosos.uol.com.br/noticias/redacao/2021/09/07/bruna-marquezine-pede-fora-bolsonaro-em-dia-de-manifestacoes.htm.

[03] "Coren-SP empossa membros da gestão 2021-2023", COREN-SP (Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo), 04 de janeiro de 2021, https://portal.coren-sp.gov.br/noticias/coren-sp-empossa-membros-da-gestao-2021-2023.

[04] https://portal.coren-sp.gov.br/sobre-o-coren-sp/diretoria

[05] Fonte: "Professora de Enfermagem da FMABC assume cargo de vice-presidente do Coren-SP", Fundação do ABC, 13 de janeiro de 2021, https://fuabc.org.br/noticias/docente-do-centro-universitario-fmabc-assume-cargo-de-vice-presidente-do-coren-sp.

[06] "A animalização da linguagem", Olavo de Carvalho, Diário do Comércio, 06 de maio de 2013, https://olavodecarvalho.org/a-animalizacao-da-linguagem.

[07] "O cão de Pavlov e como ele descobriu o condicionamento clássico", Champion Dog Adestramento, 28 de abril de 2017, https://www.championdog.com.br/o-cao-de-pavlov.

[08] Por exemplo: "O preconceito linguístico: relação alunos e ensino", Hugo Ferreira Machado Neto, Brasil Escola, 07 de abril de 2017, https://monografias.brasilescola.uol.com.br/educacao/o-preconceito-linguistico-relacao-alunos-ensino.htm; "Preconceito social e linguístico no ensino da língua materna: um olhar sociolinguístico e da análise do discurso", Edson Victor Pereira da Rocha, Brasil Escola, 20 de maio de 2016, https://monografias.brasilescola.uol.com.br/educacao/preconceito-social-linguistico-no-ensino-lingua-materna.htm.

[09]

Havia semanas que a canção estava em voga em Londres. Era uma das músicas sem conta, publicadas para os proles, por uma sub-secção do Departamento de Música. As letras eram compostas, sem intervenção humana, num instrumento chamado versificador. Mas a mulher cantava com tamanho sentimento que transformava aquela horrível pieguice num som quase agradável.

(pág. 142)

[10] "Fantasia de Bruna Marquezine revolta Conselho Regional de Enfermagem", Leo Dias, Metrópoles, 03 de novembro de 2021, https://www.metropoles.com/colunas/leo-dias/fantasia-de-bruna-marquezine-revolta-conselho-regional-de-enfermagem.

[11] "Digitalização é a chave para a reinvenção do comércio pós-Covid", Daliane Nogueira, Gazeta do Povo, 20 de abril de 2020, https://www.gazetadopovo.com.br/gazz-conecta/hack-pelo-futuro/digitalizacao-chave-para-reinvencao-comercio-pos-covid.

Texto original em português sem fotos e vídeos de putaria no A Vez das Mulheres de Verdade: "A guerra nas bolhas - parte 1: a fantasia de enfermeira de uma atriz da Globo", https://avezdasmulheres.blogspot.com/2021/12/a-guerra-nas-bolhas-parte-1.html.
Texto original em português com fotos e vídeos de putaria no A Vez dos Homens que Prestam: "A guerra nas bolhas - parte 1: a fantasia de enfermeira de uma atriz da Globo", https://avezdoshomens.blogspot.com/2021/12/a-guerra-nas-bolhas-parte-1.html.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Direita cristã, acabou! - parte 48: um tuíte do outro fundador do Partido Novo ilustra a burrice da direita

Abigail Pereira Aranha

Eu escrevi o texto "João Dória Jr. e o 'sad people' da direita brasileira"[1] pensando em quase esgotar o assunto da direita, especialmente a brasileira; mais de um ano depois de ter escrito as "Notas sobre Liberalismo e burrice"[2]. Como eu tentei explicar nesses e em outros textos, quase todos os liberais e conservadores são notoriamente incultos, doutrinários e despreparados em questões sociopolíticas. Mas vi anteontem um tuíte do Roberto Motta[3], fundador do Partido Novo junto com o João Amoêdo, que me fez pensar se valeria a pena eu comentar a respeito. No tuíte, ele colocou algo como 60 por cento da ignorância dos liberais e dos conservadores.

Roberto Motta

@rmotta2

Antídotos para impunidade e autoritarismo:

-Voto não-obrigatório e distrital

-Partidos locais e regionais

-Candidaturas independentes

-Recall de mandatos

-Fim do fundo eleitoral

-Mandato de 5 anos para cortes supremas

-Fim do foro privilegiado

7:02 AM · 3 de nov de 2021

Vou explicar os erros:

1a) Voto não-obrigatório. Eu já explico há alguns anos: quem já viu eleição de DCE ou de sindicato sabe o que é voto não-obrigatório. Se a Constituição de 1988 tivesse determinado o voto não-obrigatório, o PT estaria na Presidência da República desde 1990. Porque na esquerda, ninguém está falando de voto não-obrigatório, percebeu?

1b) Voto distrital. Quem defende o voto distrital nunca leu a Seção II e a Seção III do Capítulo I do Título IV da Constituição ("Das atribuições do Congresso Nacional" e "Da Câmara dos Deputados"). Por isso você pode achar o argumento de que o voto distrital acaba com o "deputado temático". Mas já pensou o que seria isso, se você sabe que o deputado faz leis? Hoje, o "deputado da Saúde" faz um projeto de lei sobre Saúde pública, o "deputado da Segurança Pública" dá uma olhada e pensa "não sou especialista, mas parece bom". E vice-versa. Sem o "deputado temático", a atividade da Câmara dos Deputados vai ser o que além de disputa de verbas da União pra porciúnculas da base eleitoral de cada deputado? Já é assim? Com o voto distrital, vai ser pior.

2) Partidos locais e regionais. Ideia de coronelista preparado pra perder. Se um partido não é nacional, não tem influência nacional; e se não tem influência nacional, não tem tendência a eleger um Presidente da República. No voto distrital, quem defende o sistema vai ficar satisfeito quando o partido regional eleger meia dúzia de presidentes de superassociações de bairro, porque é isso que eles entendem como deputado.

3) Candidaturas independentes. Ah, os Estados Unidos têm. E quantos deputados e senadores independentes o país já teve? Poucos. Chefes de Executivo, nem pergunto. Sabe por quê? Se um candidato não consegue nem ser aceito em um partido já existente ou criar um novo, ele também tende a não conseguir eleitores.

Se existisse a candidatura independente, como seria se eu concorresse a deputada federal? Eu fui exposta como ateia, masculinista, imprópria pra família e ninfomaníaca. Nenhum partido me quis. Mas alguns leitores e eleitores sim. Eu saí pro corpo a corpo com o eleitorado (que corpo, candidata!), os leitores e os inimigos conheceram o meu rosto e os meus atributos. Técnicos, intelectuais, morais,... mas a imprensa soltou fotos dos meus seios e da minha bunda. E isso fez o apoio eleitoral masculino crescer. Eu fui a menos votada entre os deputados eleitos. Os meus desafetos disseram "deu pra um Mineirão lotado pra ganhar votos". Mas foram só uns 50 eleitores que eu conheci na época da campanha e me comeram, os outros já me conheciam e me comiam antes. Na hora da posse, eu tentei ir com um vestido comportado (tipo uma burka), mas levei um vestido reserva com um decote modesto pro caso de alguma colega tentar ser extravagante. E de fato, uma colega tentou roubar a cena e acabou nem sendo notada. Sem mostrar nada dos seios e da bunda (só os volumes), o meu vestido levou duas tarjas de censura na TV Câmara. Os inimigos disseram: "vai ser difícil essa aí manter o decoro parlamentar". Na atividade parlamentar, toda vez que eu consegui aprovar alguma coisa ou que um projeto de lei que eu apoiei foi aprovado, espalharam que eu "negociei" com colegas homens. Nos gabinetes dos colegas homens, sempre tive as portas abertas (porque as portas fechadas podiam gerar suspeitas). Nos das colegas mulheres, a porta sempre foi na cara. No meu, as portas estão sempre abertas pros colegas (porque eles têm medo de fechar). Com o tempo, eu consolidei o PAL (Partido Ateu Liberal), com uma grande adesão das mulheres cis héteros profissionais do sexo. Porque só lá elas se sentem bem recebidas e, entre as mulheres, só elas têm coragem de entrar.

4) Recall de mandatos. O problema é que quem vai fazer essa chamada não vão ser os eleitores do NOVO, vai ser o eleitorado que elegeu o PT 3 vezes para a Presidência da República (só pra dar um exemplo rápido). No caso do meu mandato independente, os meus inimigos na Câmara dos Deputados (na esquerda e na direita) envenenaram a minha imagem pública dizendo que eu envergonho o Brasil, eu perdi o mandato e a Abigail Pereira (uma LGBT-feminista do PCdoB do Rio Grande do Sul)[4] comemorou no Twitter: "Recall de mandatos: Abigail Piranha é a primeira deputada a tomar no cu. A União Brasileira de Mulheres comemora a vitória contra a sexualização da mulher brasileira no exterior!"

5) Fim do fundo eleitoral. Por quê? Inveja dos partidos grandes? O fundo eleitoral público ajuda, este sim, a minorar o autoritarismo, porque se cada partido tivesse que usar apenas os próprios recursos, só os partidos (de) ricos seriam viáveis. Nós precisamos ter um PSOL, um PSTU ou até um Partido Novo, nem que seja pra apontar o dedo e dizer que não presta ou é fraco. A questão é de dinheiro? O Fundo Eleitoral de 2018 foi de cerca de R$ 12,00 por eleitor, 1,7 bilhões de reais[5] (os eleitores eram cerca de 147 milhões[6]).

6) Mandato de 5 anos para cortes supremas. Comentário no original: "Um mandato de 5 anos para o Supremo faria qualquer partido que ganhasse 2 eleições ter todo o STF no bolso. Não faz sentido."[7] Quando o Partido Novo foi homologado, setembro de 2015, eu já sabia que existia impeachment de ministro do STF, dado pelo Senado. Só porque eu li a Seção IV do Capítulo I do Título IV da Constituição ("Do Senado Federal").

7) Fim do foro privilegiado. Qual o objetivo da proposta? É pra prender qualquer deputado federal que for flagrado embriagado ao volante numa cidade do interior? Se for a peguete de um delegado do município vizinho, é mais fácil ela ser solta e o policial ser preso. Essa proposta é de quem não sabe o que poder, de quem talvez vá saber o que é ganhar uma eleição.

Eu evito voltar ao assunto "direita" porque o Liberalismo e o Conservadorismo estão desaparecendo como grupos políticos visíveis. Relevantes, não são mais e nunca mais serão. Eu fiz a série "Direita cristã, acabou!" pra explicar isso, mas eu iria até a parte 2, de setembro de 2015. Ninguém que atacou o meu trabalho até 2015 está fora do anonimato hoje. Ao contrário, quase todos os "influenciadores" do público liberal ou conservador (exceto pensadores como Olavo de Carvalho ou paspalhos tenebrosos como o Raphael Lima do Ideias Radicais) estão entendendo de 3 anos pra cá o que eu expliquei em 2016, 2014 ou 2009. Com o Liberalismo e o Conservadorismo, está acontecendo o contrário: essas correntes de ideias e seus exponentes só não estão numa espiral de anonimato porque a esquerda está fazendo muita besteira. Está certo que essas ideias apresentadas pelo Roberto Motta não são notoriamente ideias de direita conservadora, mas a exposição dele naquele tuíte nos dá uma amostra da parte superior da cultura do ambiente liberal-conservador no Brasil e (aí é menos óbvio) no mundo. Assim, as sandices da esquerda não colocaram o Liberalismo e o Conservadorismo de volta no debate sociopolítico, mas mostraram que estes não precisam entrar.

NOTAS E REFERÊNCIAS:

[1] "João Dória Jr. e o 'sad people' da direita brasileira", 07 de setembro de 2021, A Vez das Mulheres de Verdade, https://avezdasmulheres.blogspot.com/2021/09/joao-doria-jr-e-o-sad-people-da-direita.html; e A Vez dos Homens que Prestam, https://avezdoshomens.blogspot.com/2021/09/joao-doria-jr-e-o-sad-people-da-direita.html.

[2] "Notas sobre Liberalismo e burrice", 04 de junho de 2020, A Vez das Mulheres de Verdade, https://avezdasmulheres.blogspot.com/2020/06/notas-sobre-liberalismo-e-burrice.html; e A Vez dos Homens que Prestam, https://avezdoshomens.blogspot.com/2020/06/notas-sobre-liberalismo-e-burrice.html.

[3] Roberto Motta, 03 de novembro de 2021 às 07:02, https://twitter.com/rmotta2/status/1455837657456472067.

[4] "Conheça a Biga", Blog da Biga, http://abigail.blog.br/?p=512.

[5] "Partidos políticos receberam R$ 1,7 bilhão do Fundo Eleitoral em 2018", Tribunal Superior Eleitoral, 18 de janeiro de 2019, https://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2019/Janeiro/partidos-politicos-receberam-r-1-7-bilhao-do-fundo-eleitoral-em-2018.

[6] "Eleições 2018: Justiça Eleitoral conclui totalização dos votos do segundo turno", Tribunal Superior Eleitoral, 30 de outubro de 2018, https://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2018/Outubro/eleicoes-2018-justica-eleitoral-conclui-totalizacao-dos-votos-do-segundo-turno.

[7] Rodrigo Pinho, 03 de novembro de 2021 às 09:00, https://twitter.com/RodrigoPinho85/status/1455867392773476357.

Texto original em português sem fotos e vídeos de putaria no A Vez das Mulheres de Verdade: "Direita cristã, acabou! - parte 48: um tuíte do outro fundador do Partido Novo ilustra a burrice da direita", https://avezdasmulheres.blogspot.com/2021/11/direita-crista-acabou-parte-48.html.
Texto original em português com fotos e vídeos de putaria no A Vez dos Homens que Prestam: "Direita cristã, acabou! - parte 48: um tuíte do outro fundador do Partido Novo ilustra a burrice da direita", https://avezdoshomens.blogspot.com/2021/11/direita-crista-acabou-parte-48.html.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Dias melhores virão por quê?

Abigail Pereira Aranha

Sobre a "pandemia" da CoViD-19, eu nem vou entrar nas questões do crédito social chinês, da extinção do dinheiro físico, dos efeitos colaterais das picadas experimentais (conhecidas como "a vacina"), dos atendimentos médicos que deixaram de ser feitos ou das doenças físicas e mentais que foram produzidas pelo isolamento social e pelo terrorismo dos noticiários das mídias tradicionais. Também não vou entrar na questão de 15 dias sem sair de casa, usar máscaras faciais caseiras ou cirúrgicas, ficar a x pés de outra pessoa, fechar o comércio, se tudo isso é o que a ciência diz sobre como combater uma gripe (a própria histeria pela vacina, e não uso a palavra "histeria" por acaso, já mostra que nada disso era ciência). Também não vou entrar na questão de como todas as economias do mundo menos a terra natal do vírus chinês tiveram retração ou crescimento quase zero. Também não vou entrar na questão da censura dentro e fora da internet, que era contra "mulher pelada", contra "pedofilia" e contra a discordância da militância de esquerda e agora também é contra discordar da "ciência" e do noticiário da televisão.

O assunto para o qual eu chamo a sua atenção aqui, eu vou colocar na forma de pergunta: você pode mostrar algum exemplo de que o país ou o mundo vai sair da panicodemia (também conhecida como "pandemia") pelo menos tão doente mental, burro, infeliz ou ineficiente quanto entrou? Eu vou dar exemplos do contrário no dia-a-dia do Sudeste do Brasil. Mas antes disso, se você pensou em frasco de álcool gel em ônibus como sinal de conscientização, você já mostrou um dos problemas nessa enrascada toda: a desconexão entre a linguagem e o mundo real e dentro da própria linguagem; como a população quase inteira, mesmo a com pós-graduação, não pode falar 10 minutos ou escrever 5 parágrafos sobre quase qualquer assunto sem erros de lógica interna e externa, assim como tem dificuldades para ouvir 2 minutos ou ler 2 parágrafos sobre quase qualquer assunto e entender qual o assunto principal.

Vou começar a lista... com esse exemplo, o do frasco de álcool gel no ônibus. Você entra no ônibus, se segura naquelas barras porque os assentos já estavam ocupados e já sente a poeira de terra ou o pó preto nas mãos. Você vai pegar o tal coronavírus com essa poeira? Dificilmente. Mas qual a diferença deste ônibus para o mesmo ônibus em 2018 na mesma linha? Só o álcool gel e os passageiros com máscaras?

Vou continuar neste ônibus para um outro exemplo: os quadros de horários reduzidos e algumas linhas readequadas (pra pior) no transporte público. Reduzir a oferta de transporte público para combater uma doença respiratória? Mas isso não vai gerar mais "aglomeração" nos veículos? Não, porque o número de passageiros em pé vai ser limitado, no ônibus que têm quadros de horários de sábado ou de domingo nos dias úteis. Parece que estou fazendo piada (eu até estou), mas isso foi literalmente o que foi decretado em várias cidades do Brasil no ano passado. Se alguém acreditou que ônibus com limite de passageiros em pé (limite abaixo da lotação) diminui a circulação da população, essa pessoa não conhece o pobre do Brasil (e o pobre do Brasil é classe média perto de outros países do Terceiro Mundo). Se um trabalhador pobre precisar andar 5 km a pé por sentido pra ir trabalhar e voltar de segunda a sábado, e terminar o mês ganhando um salário mínimo, ele vai. Se fosse realmente tão direto determinar a circulação de pessoas pela oferta de transporte público, o projeto parece mais o de um país de muitos desempregados que o de um país de pessoas saudáveis (eu tive que entrar um pouquinho na área política). No caso do Brasil, uma boa parte dos usuários pagantes é de pessoas com emprego formal que recebem o vale-transporte. Mas bastou o PIB cair 4% e o desemprego aumentar, e as empresas de ônibus fizeram o quê? Várias delas pediram socorro financeiro pras prefeituras. Porque os custos caíram um pouquinho, mas o número de passageiros caiu mais. Aí eu volto àquela pergunta: as nossas classes falante e negociante vão sair dessa fraudemia (também conhecida como "pandemia") menos burras do que entraram? Alguns deles, como alguns empresários de ônibus, pensaram que a plandemia (também conhecida como "pandemia") podia ser um "negócio da China". E foi, mas pra China.

O terceiro exemplo: retirada de bebedouros em locais de uso público. O que isso tem a ver com transmissão de doenças respiratórias (incluindo CoViD-19)? Ah, a pessoa vai tomar água e encosta a boca no bebedouro. E você já usou um daqueles bebedouros com um jato d'água que parece que pode arrancar um dente? Nesses, você não encosta a boca na saída de água. Qual foi a solução: aumentar a pressão da água do bebedouro ou desligar o aparelho? Isso foi pra enfrentar uma gripe. E para outros problemas reais e fictícios, quantas pessoas em postos decisivos copiam soluções estúpidas, que criam problemas e aborrecimentos reais?

O quarto exemplo, eu vou colocar na forma de pergunta: as vizinhanças vão honrar o nome de "isolamento social"? O fiscal de isolamento social denunciou o seu churrasco na sua casa com seus amigos, denunciou a sua loja aberta. Com que cara ele pode dizer "foi preciso e valeu a pena"? O isolamento social fez os casos de gripe comum e pneumonia diminuírem de 2019 pra 2020, mas não os de CoViD-19. Como assim? "Todos contra o coronavírus" é um caralho! E o caralho é chinês. Ah, e isso me lembra alguns churrascos com amigos na minha casa ou na casa de um deles (nenhum deles é chinês). Ainda antes da CoViD-1984, eu já tinha lido notícias de pessoas que foram detidas nos Estados Unidos por sexo no quintal da própria casa, um casal por estar a mulher com os seios nus dentro de casa enquanto faziam um serviço doméstico, uma mulher por estar vendo filme pornô no quarto (a casa dela era ao lado de uma escola); tudo isso porque um vizinho viu de fora e denunciou à polícia. Se fosse lá, eu já sairia presa por prostituição de algum dos nossos encontros de amigos. Os policiais chegariam lá e... "Você de novo?! E esses 4 são outros amigos seus?" "Sim, policiais. Vem cá participar do churrasco. Vocês podem entrar com a linguiça." Neste isolamento social (também conhecido como "quarentena"), a fofoqueira da vizinhança podia fazer a vigilância pela moral e pelos bons costumes e ainda zelar pela saúde pública.

E nisso tudo, eu abordei quase nada de geopolítica ou de política local. Porque se você acredita em "pense globalmente, aja localmente" ou se você acha política uma coisa chata e distante, estão aí os exemplos locais. Bom, os meus exemplos locais, que podem ser os seus ou a que você pode acrescentar os seus. E como disse uma vez o prof. Olavo de Carvalho, "nenhum país resolveu seus problemas primeiro e ficou inteligente depois". Então, "vai passar" é a mão chinesa na bunda de quem fala (bom, eu não sou contra algumas mãos na minha bunda, mas essa não é uma delas). E, sim, eu sou negacionista, eu nego que "dias melhores virão". Ou melhor, virão pras lembranças ("eu era feliz e não sabia"). E aí, sim, talvez possamos começar a sermos melhores.

Texto original em português sem fotos e vídeos de putaria no A Vez das Mulheres de Verdade: "Dias melhores virão por quê?", https://avezdasmulheres.blogspot.com/2021/10/dias-melhores-virao-por-que.html.
Texto original em português com fotos e vídeos de putaria no A Vez dos Homens que Prestam: "Dias melhores virão por quê?", https://avezdoshomens.blogspot.com/2021/10/dias-melhores-virao-por-que.html.

sábado, 18 de setembro de 2021

Unidos (ou não) contra... aquilo: o Gab censura conteúdo NSFW e é bloqueado pela Mastercard, que também censura pornografia

Abigail Pereira Aranha

1) Uma postagem minha no VK e no Gab, adaptada[1]

Pessoal, eu fui dar uma passada no perfil da Lena Paul no Twitter e olha só o que eu achei:

Eu esqueço que os seguidores não sabem tudo sobre pornografia na medida em que acontece. Apenas lembre-se de que se eles podem impedir legalmente as profissionais do sexo legalizadas de venderem seus produtos, eles podem fazer isso com qualquer outra pessoa. Nós somos o canário na mina de carvão pela liberdade civil.

Lena Paul, 19 de agosto de 2021 às 18:33.[2]

MEUS COMENTÁRIOS

Vocês conhecem essa história do canário na mina de carvão? Antigamente, as minas não tinham ventilação e o pessoal levava um canário numa gaiola. Se o canário morria, é porque tinha muito metano no ambiente. O gás metano não tem cheiro e tem efeito narcótico.

A matéria compartilhada: "Mastercard reescreve regras para bancos que apóiam vendedores de pornografia", Bloomberg, 14 de abril de 2021[3].

A última frase do tuíte está dentro da linha de um texto meu de 2014: "Viva a prostituição, a pornografia e... as liberdades civis"[4]. Ah, e eu já trazia a informação esotérica de que o governo chinês censurava sexo e conteúdo político. Em 2015, os conservadores comemoraram quando o acesso ao Pornhub foi bloqueado na Rússia. Comentei na época[5], e avisei que eles iam chorar depois. Hoje, aqui no Brasil, temos gente chorando porque pessoas tiveram sigilo bancário quebrado, ou dinheiro bloqueado, ou conta no Apoia.se cancelada só por apoiar Jair Bolsonaro.

2) Um comentário no Gab e o meu comentário

Matheus @Matheus_Reus

12 de set. de 2021 23:24[6] · Ateísmo e putaria com Abigail Pereira Aranha

@abigailparanha O @a baniu NSFW no Gab e chora por ser bloqueado pelo Mastercard, Visa, Paypal, Google, Microsoft, Amazon...

"@a" é Andrew Torba, o fundador do Gab. Eu comentei que o "Not Safe For Work" não era exatamente banido, só tinha que ser sinalizado. O grupo onde eu fiz essa postagem, você pode fazer ideia pelo título "Ateísmo e putaria com Abigail Pereira Aranha". Mas, como eu disse ao Matheus, a coisa é realmente por aí.

3) Fui banida do Gab

24 horas depois, eu recebi este e-mail:

Sua conta @abigailparanha foi suspensa

Gab Social <noreply@mailer.gab.com>

13 de set. de 2021 23:41 (há 20 horas)

Conta suspensa

Sua conta está suspensa e todos os seus gabs e mídias foram irreversivelmente removidas desse servidor e de servidores onde você tinha seguidores.

Statuses:

@abigailparanha https://vk.com/wall-97673417_367875 #porno #gozada #cumshot

jun 16, 2021, 00:25

Vou traduzir o primeiro parágrafo em inglês e vou comentar daqui a pouco.

Gab procura exportar o valor exclusivamente estadunidense da liberdade de expressão para todo o mundo. Independentemente de os administradores do Gab, grupos de pressão ativistas externos, turbas da internet da "cultura do cancelamento", a mídia convencional, governos estrangeiros ou qualquer outra pessoa concordar com quaisquer pontos de vista do Gabber: o discurso político que é protegido pela Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos será permitido na plataforma. Atividades ilegais, ameaças de violência, doxxing, pornografia, exploração infantil e spam não são permitidos no Gab.

Mas eu vi esse e-mail depois de receber este aviso quando eu entrava no Gab:

gab

Você não tem permissão para ver esta página.

Eu já fui banida do Facebook, mas até poucos meses atrás, você podia me mandar o atalho pra uma postagem específica e eu podia ver, desde que ela fosse pública. Eu fui banida do Twitter, mas ainda posso ver qualquer perfil que não seja fechado. Mas o Gab faz isso! Eu nunca recebi advertência do Gab antes. O Facebook já me deu suspensão por nudez (por um reconhecimento de imagem mal calibrado), 3 vezes (cada uma em uma conta); mas nunca apagou a conta.

4) Notas sobre sexo e liberdade de expressão

Como vimos há pouco, o Gab defende a liberdade de expressão pra quaisquer ideias, mesmo que a diretoria não concorde, mas repudia a putaria. Inclusive a Gleisi Hoffmann, a presidente do PT, já teve perfil no Gab. Você nem imaginava, né? Porque lá não é o Twitter, a esquerda não cresce. Mas a diretoria e os criadores do Gab ainda acreditam que pornografia não tem relação com liberdade de expressão ou mesmo com ideias, exatamente como provei o contrário naquele texto de 2014. É o mesmo erro, com sinal trocado e mais "bonitinho", do "sua piada mata" da esquerda maluca. Também é o mesmo erro, nos dois lados, da "plandemia" da CoViD-19, onde os dois lados pensam que esquerda e direita são opiniões políticas enquanto concordam que a implantação do socialismo chinês no Ocidente é só o enfrentamento a uma crise de saúde pública.

Poderíamos dar o desconto de que a diretoria do Gab é de um país onde a prostituição é crime e onde alguns tentam criminalizar a pornografia? Sim e não. Quando você cresce em uma região ouvindo que alguma coisa "é assim porque é e ponto", você tende a só ter uma visão inteligente do assunto com uns 25, 30, 40 anos, depois de anos com alguma distância da família e da vizinhança da infância, em algum lugar intelectualmente mais desenvolvido ou em uma condição pessoal que lhe permita filosofia mais segurança pessoal; ou, como é mais comum, em uma experiência de vida que leva ao questionamento de uma forma desagradável. Mas ainda mais com a internet, não é mais razoável depois de uma certa idade trocar o exercício do raciocínio íntegro pela verborragia de preconceitos regionais ou grupais.

5) E como tudo se encaixa!

Eu ainda não tinha lido aquela matéria da Bloomberg. Vi depois estes trechos interessantes:

Os bancos que conectam comerciantes à nossa rede precisarão certificar-se de que o vendedor de conteúdo adulto possui controles eficazes para monitorar, bloquear e, quando necessário, retirar todo o conteúdo ilegal. (...)

A Mastercard também exige que os bancos garantam que os sites tenham um processo de revisão antes da publicação de qualquer conteúdo, bem como um sistema para reclamações que trate de atividades ilegais ou não consensuais em sete dias úteis. A rede de pagamentos também exige que os bancos garantam que os sites tenham um processo de apelação que permita que qualquer pessoa retratada em vídeos ou fotos adultos solicite a remoção do conteúdo.

As mudanças ocorreram depois que a Mastercard, em dezembro, disse que não permitiria mais o uso de seus cartões no Pornhub.com, após uma análise do site ter descoberto conteúdo ilegal. Tanto a Mastercard quanto a rival Visa Inc começaram a pesquisar o Pornhub depois que uma coluna do New York Times acusou o site de distribuir vídeos que retratavam abuso infantil e violência não consensual.

Os bancos têm que provar pra administradora de cartão de crédito que o cliente provou que está dentro de certas leis. Ora, a prova é que se o cliente estivesse fora da lei, seria o Judiciário que estaria pedindo bloqueio de conta corrente ou algo assim. Mas você já viu vídeos no XVideos com as pessoas usando as máscaras da peste chinesa? Eu já vi as visualizações, não cliquei pra não ter o dissabor de ver. E se um vídeo com atores que não usam a máscara e não tomaram a vaChina for "conteúdo ilegal"?

E que artigos do New York Times são esses em que o Pornhub é acusado até de abuso infantil? Aqueles artigos delirantes do Nicholas Kristof que eu citei no meu texto de junho, que foram referências daquele relatório da UNICEF que foi tirado do próprio portal da UNICEF... sob acusação de conservadores de que ele incentiva o acesso de crianças à pornografia. Eu conto esse caso em "Aquilo com nome que começa com p, eu avisei: as quedas de um relatório da UNICEF e do canal do conservador Luís Ernesto Lacombe no YouTube"[7].

Na verdade, o "canário na mina de carvão" não é só a profissional do sexo que pode ser remunerada via cartão de crédito, é qualquer mulher que dê prazer aos homens. A primeira é uma figura recente, fruto do desenvolvimento sociocultural e técnico-científico de onde o serviço está disponível. A última já existiu, mesmo como raridade, ao longo da história da humanidade. E ela foi expulsa de casa, segregada, agredida, presa ou assassinada principalmente nos lugares e nas épocas de menos desenvolvimento sociocultural. É o meu caso (bom, sem a parte da violência). Eu não dou prazer pros rapazes só na internet, mas compartilho na internet um pouco do que os meus amigos fazem comigo na vida real. Pelo tempo que eu tinha feito aquela postagem no Gab, 1 ou 2 meses, eu fui denunciada. E aí eu chego ao ponto: o alvo não era eu, era o homem que podia ser um visitante do perfil.

Na verdade, a censura ao sexo é um ataque contra os homens. Por sinal, "pedofilia" ou "exploração sexual infantil" não existem, e isso devia ser claro pra quem já viu o tamanho de uma criança de 9 anos. Esses são nomes feios para atacar o sexo com adolescentes. Mas contra a heterossexualidade masculina, se unem o puritanismo católico-protestante dos Estados Unidos, o socialismo da China, as lésbicas repulsivas do LGBT-Feminismo da América Latina, as congressistas europeias que defendem o Modelo Nórdico, e outros. E os verdadeiros e os falsos moralistas entre esses não perceberam que o que eles aplaudem na censura contra o sexo pode ser o que será (ou já foi) usado por outro verdadeiro ou falso moralista contra eles mesmos.

NOTAS E REFERÊNCIAS:

[1] Abigail Pereira Aranha, 12 de setembro de 2021 às 19:30, https://vk.com/wall546824903_1294.

[2] Lena Paul, 19 de agosto de 2021 às 18:33, https://twitter.com/lenaisapeach/status/1428470101641027590.

[3] "Mastercard Rewrites Rules for Banks Backing Pornography Sellers", Bloomberg, 14 de abril de 2021, https://www.bloomberg.com/news/articles/2021-04-14/mastercard-rewrites-rules-for-banks-backing-pornography-sellers.

[4] "Viva a prostituição, a pornografia e... as liberdades civis", 20 de novembro de 2014, A Vez das Mulheres de Verdade, https://avezdasmulheres.blogspot.com/2014/11/viva-prostituicao-pornografia-e-as.html; e A Vez dos Homens que Prestam, https://avezdoshomens.blogspot.com/2014/11/viva-prostituicao-pornografia-e-as.html.

[5] "O Puritano-Feminismo episódio 25: uma semana depois que o governo da Rússia censura o PornHub, uma página direitista cristã celebra; enquanto isso, um artigo em um jornal britânico relata que pesquisadores no Canadá descobriram que 'pornografia não provoca atitudes negativas para as mulheres', indignando uma feminista anti-pornografia (Ou: Direita cristã, acabou! - parte 5)", 25 de setembro de 2015, A Vez das Mulheres de Verdade, https://avezdasmulheres.blogspot.com/2015/09/o-puritano-feminismo-episodio-25-uma.html; e A Vez dos Homens que Prestam, https://avezdoshomens.blogspot.com/2015/09/o-puritano-feminismo-episodio-25-uma.html.

[6] Matheus, 12 de setembro de 2021 às 23:24, https://gab.com/Matheus_Reus/posts/106921976968945067.

[7] "Aquilo com nome que começa com p, eu avisei: as quedas de um relatório da UNICEF e do canal do conservador Luís Ernesto Lacombe no YouTube", 24 de junho de 2021, A Vez das Mulheres de Verdade, https://avezdasmulheres.blogspot.com/2021/06/aquilo-com-nome-que-comeca-com-p.html; e A Vez dos Homens que Prestam, https://avezdoshomens.blogspot.com/2021/06/aquilo-com-nome-que-comeca-com-p.html.

Texto original em português sem fotos e vídeos de putaria no A Vez das Mulheres de Verdade: "Unidos (ou não) contra... aquilo: o Gab censura conteúdo NSFW e é bloqueado pela Mastercard, que também censura pornografia", https://avezdasmulheres.blogspot.com/2021/09/unidos-contra-aquilo-gab-mastercard.html.
Texto original em português com fotos e vídeos de putaria no A Vez dos Homens que Prestam: "Unidos (ou não) contra... aquilo: o Gab censura conteúdo NSFW e é bloqueado pela Mastercard, que também censura pornografia", https://avezdoshomens.blogspot.com/2021/09/unidos-contra-aquilo-gab-mastercard.html.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

João Dória Jr. e o "sad people" da direita brasileira

Abigail Pereira Aranha

1) Introdução à "red pill"

A direita e o Conservadorismo provaram nos mandatos do PT na presidência do Brasil que as maiores adversárias da esquerda são sua própria loucura e sua própria burrice. Porque, formalmente, os que seriam os adversários da esquerda são os herdeiros irritadiços de uma elite agrária que odiava cultura, que odiava a inteligência, que odiava o prazer e que acreditava sinceramente que nasceu pro poder e pra regalia. Como exemplo do Brasil, a própria dificuldade para tirar Dilma Rousseff (uma mulher notoriamente idiota e sem brilho próprio) da Presidência da República ou para meramente concorrer com ela mostra como esses herdeiros são incultos e mal acostumados; e como a cultura dessa elite é uma farsa. Mas a ala direita da política não representa sequer o Cristianismo milenar ou a Igreja Católica, e nós pudemos ver isso especialmente observando como a grande Igreja Católica tem precisado deixar o Progressismo entrar pra não ter ainda mais perda de membros, credibilidade e relevância política. O Conservadorismo é, desde a origem, nostalgia do Feudalismo; o Liberalismo e o Libertarianismo são, desde a origem, ufanismo da elite agrária-industrial.

O Manifesto Comunista tem mais de 170 anos, a União Soviética faria 100 anos no ano que vem, o livro "Pedagogia do Oprimido" de Paulo Freire tem pouco mais de 50; e até hoje os liberais e os conservadores só sabem combater a esquerda com caricaturas e boatos difamantes, como se ainda estivessem falando pra população rural analfabeta do tempo dos avós. Porque até hoje a direita vê a esquerda como o adversário político-eleitoral que lhe tirou a Administração Pública da cidade pequena do avô. Até hoje, e isso ficou notório nas redes sociais, a direita ainda ataca a esquerda como se fosse uma campanha de uma família de latifundiários católicos de uma cidade pequena contra adversários nas eleições municipais. A vergonha só não é maior porque às vezes, com cada vez mais frequência, a esquerda cria materiais escabrosos contra ela mesma além da imaginação dos próprios inimigos dos anos 1990.

2) Vamos fazer uma breve revisão dos erros da direita "sad boy"

Além do próprio perfil (incluindo o perfil de rede social) de "loser" mal humorado sem sinal de inteligência e cultura acima da média, onde erram os "sad boys" e as "sad girls" do meio liberal-conservador?

01) Um estereótipo burro de o que é "o Estado". Uma mistura de preconceito de estadunidense contra a União Soviética com paranoia de condenado pela Justiça do Trabalho. Toda a revolta dos liberais e dos conservadores contra "o Estado" é notoriamente mágoa de derrotados. Quando uma pessoa média do povo de verdade toma conhecimento do que a direita fala, pensa em um capitalista querendo se livrar da Justiça do Trabalho ou lucrar fácil com uma empresa estatal comprada abaixo do valor justo. Alguém viu algum ultraliberal (que se autodenomina "anarcocapitalista") no tempo em que "o Estado" reprimia o sexo e agredia sindicalistas?

02) "Quem bate cartão não vota em patrão". Esse era o slogan do PCO (Partido da Causa Operária). Mas o uso aqui como uma frase curta pra ilustrar a desconexão da direita com o povo. Você pode encontrar "intelectuais" e "influenciadores" da direita explicando que se o patrão pagasse menos encargos trabalhistas, poderia pagar melhor ao seu funcionário; ou, pior, que a existência do salário mínimo provoca desemprego. Não é só muita sorte que as ideias liberais não cheguem aos proletários. Os liberais não entendem que se eles e os próprios empregados não votarem nos mesmos candidatos, os candidatos deles não se elegem. Quem criou o PT ou o PCO foi a direita.

03) As queixas de que a esquerda faz isso ou aquilo com dinheiro público. O problema neste argumento fica mais claro quando em vez de "dinheiro público" ou "o seu dinheiro", o liberal ou o conservador diz "o meu dinheiro": ele pensa na Administração Pública como parte do latifúndio do avô.

04) Dizer que o povo idolatra políticos. Essas pessoas que não são "gado" demoraram dois anos pra conseguir o impeachment da Dilma Rousseff (pela metade) no segundo mandato, mesmo quando ela tinha mais de 60% de rejeição. Disputar uma eleição pra presidente com Dilma Rousseff já é um demérito. Perder duas vezes é vergonhoso, uma vergonha pra esse pessoal fazer autocrítica em silêncio até voltar preparado pra ganhar pelo menos dela. Na realidade, "idolatrar políticos" é demonstrar simpatia a qualquer político que não seja da esquerda. Portanto, quem diz que o político é seu empregado mostra a receita pra nunca lançar um candidato a vereador de cidade pequena que consiga ser eleito.

05) Trocar os ícones políticos pelos ícones para consumo local. Eles dizem que não "chupam" políticos, mas os homens têm suas "estrelas" das quais gostariam de ganhar "chupadas". Pessoal, isso não é condenável. Se você homem conservador me acha bonitinha, mas muito vagabunda, se você tem horror com a ideia de se casar comigo e me ver transando com dois homens na nossa casa; tudo bem você gostar de uma moça mais comportada. Mas você precisa sair do armário, assumir que você é hétero. Se você não assume isso, você pode ajudar a projetar uma "attention whore", literalmente "vadia de atenção". Aliás, você já leu o meu texto "Uma nota sobre as belas mulheres comentaristas conservadoras"[1], de março de 2017? Chamo você pra voltar lá, ver as fotos das moças que eu citei e pensar onde elas estão agora (3 das brasileiras estão na política). Mas não me refiro só à... admiração dos homens pelas celebridades femininas. No caso do meio liberal-conservador, o problema dos ícones se aplica até quando não há interesse sexual: o problema é a tentativa de criar "pin-ups"[2] e garotos-propaganda para apresentar as ideias enlatadas para o público externo; ou pior e ao contrário, a criação de um espaço seguro da direita com ícones que soam bonitos e inteligentes.

06) Achar traidores, ou "falsa direita". No caso das moças conservadoras, já há o termo "conservadia". Eu gosto desse termo, inclusive porque eu já fui chamada de piranha (eu mereço) e até de feminista, mas nunca de "conservadia". Mas são dois os problemas aqui. O primeiro problema é que o assunto da "verdadeira esquerda" é mais relevante que o da "verdadeira direita". A "verdadeira direita" perdeu 4 eleições para o PT, 2 delas pra Dilma Rousseff, e Jair Bolsonaro foi eleito porque NÃO É de direita. O segundo problema é que a questão de quem é "falsa direita", ainda mais porque alguns deles foram "influenciadores" em outros anos, mostra como o Liberalismo e o Conservadorismo é mais próximo de um conjunto de clichês e cacoetes que de uma ideologia.

07) Os fantasmas simplistas que mandam no país ou no mundo. "O sistema", "a elite global", esse ou aquele multibilionário,... São simplificações que geram perguntas no lugar de explicações, que também exageram o poder do dinheiro, da bruxaria, da comunicação de massa, da própria política formal, a um ponto em que a própria existência de um pensamento que não seja o que "eles" querem seria inviável. Mas está lá o rebelde com um perfil anônimo no Twitter, ou um blogue gratuito no WordPress, etc. Alcance de uma ideia divergente é uma coisa, meios de expressão dessa ideia é outra.

08) As queixas de que as leis não valem nada. Mesmo entre os influenciadores da direita, raras pessoas que dizem isso leram uma lei inteira alguma vez. E essas que têm um conhecimento básico de Direito têm uma diferença notória daquelas que dizem que "os políticos fazem que querem" ou, como é moda agora, que "o STF manda no Brasil".

09) Dizer que o povo precisa fazer baderna. Quebrar os prédios dos Três Poderes não é revolução nem mesmo revolta, é só um crime comum. Invadir a sede do STF e pegar os 11 ministros não vai derrubar ninguém, só vai fazê-los vítimas de lesão corporal, ameaça ou homicídio. Pregar que o povo deve fazer tudo isso é só apologia ao crime de gente burra irritadiça. É o equivalente político do homem que quer matar o namorado novo da ex-mulher. Por sinal, a própria direita entende que uma reação física é sinal de derrota no argumento quando vê ativistas da esquerda tendo esse tipo de reação.

10) Usar um vocabulário chulo. Eu escrevi sobre isso em janeiro o texto "Por que você precisa ter compostura nas palavras"[3].

11) Pregar contra uma suposta degradação sexual moderna. Eles fazem postagens ou compartilham memes nas redes sociais como se qualquer pessoa com mais de 14 anos tivesse vida sexual intensa. Qualquer pessoa menos eles, que por isso são mais adultos e mais éticos. No final, tudo que os conservadores acabam demonstrando nos tempos da internet é o horror ao prazer mais a inveja que a mãe tem de mulher bonita, e como a vida sexual deles é precária. E quando eles falam em degradação moral, também é (na verdade é) um tempo em que uma pessoa mediana tem menos neurose sexual que a da avó de quem fala. Mas a mesma pessoa (especialmente se for homem) pode vociferar contra a sexualização da sociedade e até contra a difusão da "pedofilia", e depois compartilhar alguma coisa erótica leve no Twitter ou no Facebook, em geral com uma linha humorística. Por quê? Sexualidade reprimida.

12) Não aprender com quem pensa diferente. Isso tem a ver com aquele problema que eu citei em que os liberais e os conservadores tentam criar "pin-ups" e garotos-propaganda de suas próprias visões de mundo, mas aqui ainda há um outro problema: a direita se fecha mentalmente para outras ideias como a esquerda só começou há uns 30 anos ou menos. Eu mesma tenho a impressão de que sou ignorada pelos liberais e conservadores porque sou ateia, defendo o casamento aberto, defendo a prostituição, defendo a pornografia e defendo a licenciosidade (já dei pra 318 rapazes). Mas qual "influenciador" da direita já leu o "Manifesto Comunista" ou o "Pedagogia do Oprimido"? Talvez o Allan dos Santos, do Terça Livre. Já sei, vai ter gente torcendo o nariz porque eu citei este nome. Entendeu? "Guerra cultural" é devorar livros aprovados pela Igreja Católica no fim do século XIX (tá bom, isso foi uma imensa caricatura, mas é por aí).

13) Fazer campanha antieleitoral. A campanha por abstenção na eleição ou voto nulo é uma campanha que pede aos eleitores para implorar pra serem ignorados. Na democracia do Império Grego, isso era literalmente ser "idiota". Quem já viu eleição de sindicato ou de movimento estudantil sabe o país que os idiotas pedem (idiotas naquele sentido grego).

3) Quando o "sad people" conseguiu alguma coisa

E você, Abigail, aponta essa série de erros na direita, mas propõe o quê? Ou: não é melhor o que temos feito do que não fazer nada? Quando a ação é burra mas dá resultados, é até aceitável como estratégia provisória pra dar tempo e recursos pra parte "cabeça" da turma criar uma estratégia melhor, tanto em intelecto quanto em resultados. Mas nem esse crédito os liberais e os conservadores têm. O que eles conseguiram desde 1° de janeiro de 2003, quando Lula tomou posse como presidente?

E quando eles puderam eleger alguém em 2018, o que conseguiram? Jair Bolsonaro pra presidente? Foi bom, foi um avanço pra quem teve que torcer por Aécio Neves em 2014 e José Serra em 2010 (ambos do PSDB) contra Dilma Rousseff. Mas e para apoiá-lo? Para deputados federais, elegeram Alexandre Frota, Bia Kicis, Carla Zambelli, Joice Hasselmann, Kim Kataguiri, Luís Miranda USA, Nelson Barbudo, Policial Katia Sastre, Professora Dayane Pimentel e Sargento Fahur. Para senador, Jorge Kajuru. Fora os filhos do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro. Todos esses tiveram desempenhos horrorosos como apoiadores ou se voltaram contra o presidente em cuja onda foram eleitos. Para governador do Rio de Janeiro, os eleitores de Bolsonaro elegeram Wilson Witzel, que, depois de se apoiar no presidente, tentou caluniá-lo pra tomar o lugar dele em 2022[4], mas acabou sofrendo impeachment por desvio de dinheiro destinado ao combate à "pandemia"[5]. Para prefeito de São Paulo, eles elegeram João Dória Jr. Qual foi a linha de marketing pra eleição de 2016? "Ele não é político". Já em 2016, o The Intercept avisava que isso ia acabar mal (vou deixar a matéria no apêndice). Depois, eles o elegeram governador do estado de São Paulo em 2018 e deixaram seu vice Bruno Covas na prefeitura. No meio do mandato de governador, João Dória Jr. viu a sua chance de ser presidente do Brasil usando a peste chinesa pra atacar Jair Bolsonaro.

Desde o ano passado eu digo no Facebook e no VK que a direita devia derrubar o "Ditadória" e o Bruno Covas por impeachment, não nas eleições. Porque João Dória Jr. e Bruno Covas tinham algum currículo: o primeiro é empresário e filho de outro governador de São Paulo, João Agripino Dória; o segundo era neto de outro governador de São Paulo, Mário Covas Júnior. Os outros surgiram da bolha da direita nas redes sociais e no YouTube, e já vão voltar de Brasília para o anonimato em 2023 só por trair os eleitores de Jair Bolsonaro e, assim, os deles próprios. Agora, Bruno Covas já morreu[6], mal aproveitou o segundo mandato. Faz um tempo em que até o Diabo anda escrevendo certo por linhas tortas. Então, ainda ficam duas perguntas: 1) ainda há tempo até outubro de 2022 para os liberais antipolítica perceberem a obrigação que têm de derrubar um político eleito por causa deles? 2) ainda há tempo, também até outubro de 2022, para os liberais antipolítica perceberem a dificuldade que vão ter para o impeachment de João Dória Jr. mesmo com sinais de corrupção e uma impopularidade grande pela má "gestão da pandemia"?

O caso da CoViD-19 (ou golpe do vírus chinês) ajudou a fazer da direita, principalmente a parte "sad people", um exemplo vivo daquela frase de Arnold Toynbee: "o maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam".

NOTAS E REFERÊNCIAS:

[1] "Uma nota sobre as belas mulheres comentaristas conservadoras", 14 de março de 2017, A Vez das Mulheres de Verdade, https://avezdasmulheres.blogspot.com/2017/03/uma-nota-sobre-as-belas-mulheres.html; e A Vez dos Homens que Prestam, https://avezdoshomens.blogspot.com/2017/03/uma-nota-sobre-as-belas-mulheres.html.

[2] pin-up

Um termo antiquado para material sexualmente excitante (embora muitas vezes não explícito), como mulheres caucasianas atraentes e sorridentes, olhando para trás e ligeiramente inclinadas, ou deitadas de costas arqueadas.

(Urban Dictionary, https://www.urbandictionary.com/define.php?term=pin%20up)

[3] "Por que você precisa ter compostura nas palavras", 09 de janeiro de 2021, A Vez das Mulheres de Verdade, https://avezdasmulheres.blogspot.com/2021/01/por-que-voce-precisa-ter-compostura-nas-palavras.html; e A Vez dos Homens que Prestam, https://avezdoshomens.blogspot.com/2021/01/por-que-voce-precisa-ter-compostura-nas-palavras.html.

[4] "Bolsonaro diz que Witzel atuou para implicá-lo no caso Marielle", Metrópoles, 02 de novembro de 2019, https://www.metropoles.com/brasil/politica-brasil/bolsonaro-diz-que-witzel-atuou-para-implica-lo-no-caso-marielle.

[5] "Tribunal aprova por unanimidade impeachment de Witzel, que fica inelegível por 5 anos", G1, 30 de abril de 2021, https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/04/30/tribunal-especial-abre-a-sessao-para-decidir-impeachment-de-witzel-1.ghtml.

[6] "Prefeito Bruno Covas morre de câncer aos 41 anos em São Paulo", R7, 16 de maio de 2021, https://noticias.r7.com/sao-paulo/prefeito-bruno-covas-morre-de-cancer-aos-41-anos-em-sao-paulo-16052021.

Apêndice

"A velha nova política de João Doria Júnior", The Intercept Brasil, 09 de outubro de 2016. Disponível em https://theintercept.com/2016/10/09/a-velha-nova-politica-de-joao-doria-junior.

A velha nova política de João Doria Júnior

Apesar do discurso pretensamente moderno, o novo prefeito de São Paulo se elegeu praticando a velha politicagem de sempre e empurrou seu partido ainda mais para a direita.

9 de Outubro de 2016, 14h10

Foto: Mauricio Lima/Getty images

Folha: O sr. é um político experiente…

Paulo Maluf: Não, eu sou engenheiro.

 

Há dois anos, Maluf renegava sua condição de político em entrevista à Folha. Logo ele, um homem que infesta a política nacional desde o período jurássico. Viu sua fortuna crescer durante a ditadura militar, foi prefeito biônico da capital paulista e, após a redemocratização, se elegeu trocentas vezes para prefeito e governador em terras bandeirantes. Apesar de jurar não ser político, Paulo Maluf é o pai do malufismo – uma corrente político-filosófica conservadora que trouxe sua experiência na iniciativa privada para a vida pública e cunhou máximas gloriosas como “rouba, mas faz” e “estupra, mas não mata”.

Quando vi Bruno Covas, eleito vice-prefeito de São Paulo, comemorando a vitória ao lado de João Doria Júnior, tentei imaginar o que pensaria o avô ao vê-lo numa chapa que renega a política de uma forma ainda mais acintosa que Maluf, seu histórico rival. Covas, também engenheiro, talvez tenha sido o último sopro de social democracia do partido social-democrata e jamais demonizou a política. Arrisco dizer que ele repudiaria com vigor um candidato cuja principal marca de campanha foi a exaltação da sua carreira empresarial.

Doria está muito mais próximo do malufismo do que da social-democracia de Covas. Em um post de desabafo no Facebook, um ex-assessor seu afirma que Mário Covas não engolia o então secretário da Paulistur:

“Vomito quando vejo Dória falando de Mário Covas, que não o digeria. Mário entrava na sala de João, no Anhembi, batendo cinzas de cigarro no chão, por não aturar o executivo imposto pelo grande governador Franco Montoro. Covas não o suportava, e ele vem dizer que era amigo e que muito aprendeu com Covas.”

Alberto Goldman, vice-presidente nacional da legenda que elegeu Júnior, concorda. Às vésperas da eleição, escreveu um alerta sobre o candidato do seu próprio partido.

“Dória diz não ser político, mas administrador, empresário. Não é verdade. Ele mesmo se vangloria em ter sido presidente da Paulistur, no governo Mário Covas, e presidente da Embratur, no governo José Sarney, ambas empresas estatais da área do Turismo. Seu material de propaganda divulga que foi coordenador da campanha “Diretas Já”, o que também não é verdade. Exerceu cargos políticos, remunerados, profissionalmente. Agora é candidato a prefeito. (…) É um cidadão totalmente desprovido de escrúpulos, teve sua vitória nas prévias pelo abuso do poder econômico que tem e, infelizmente, pela ação do governo do Estado. É uma desgraça para o partido que desejo ardentemente salvar.”

As declarações de Goldman devem ser vistas com ressalvas, já que partem de um desafeto de dentro do partido, mas os fatos elencados são sérios e sinto que há uma genuína preocupação com os rumos que Júnior pode dar ao PSDB. Não seria à toa.

Um perfil escrito por Juliana Dualibi para a Revista Piauí traz à tona os bastidores da briga interna tucana e a politicagem pesada que Doria Jr empreendeu para atingir seus objetivos. O modus operandi que o alçou à condição de candidato tucano é de invejar até mesmo o seu aliado Maluf. Ninguém venceria Matarazzo, Serra e FHC no PSDB só com gestão e eficiência, mas com política pesada. O novo prefeito de São Paulo pavimentou toda sua carreira empresarial sempre estando muito perto de políticos e administrações públicas – o que sempre gerou grandes oportunidades para seus negócios. A Lide, sua empresa de eventos, não produz bens nem serviços significantes, apenas estabelece e fortalece a relação de empresários com políticos e gestores públicos – o famoso lobby.

Desfilar com elegância entre o público e o privado sempre foi uma característica desse businessman, mas algumas escorregadas éticas rolaram: desde desvios de verbas em cargos públicos que ocupou até a uma invasão (que o Estadão chamou carinhosamente de “incorporação”) de terras públicas para construir uma mansão. Nos últimos 10 anos, Doria recebeu de diferentes governos um total de R$10,6 milhões. Em média, R$1 milhão por ano. Nada mal para quem prega alucinadamente cortes de gastos públicos, não?

Estado mínimo, meu milhão primeiro. E as mamadas eram apartidárias: Júnior conseguiu verba tanto da Petrobrás, comandada pelo PT, quanto de Alckmin, que decidiu fazer publicidade do governo de São Paulo em revistas que ninguém lê, como a Caviar LifeStyle da Editora Doria.

Em sua primeira entrevista como prefeito eleito, Júnior baixou uma ordem ao vivo para futuros secretários e colaboradores que ainda nem foram escolhidos: todos serão obrigados a assistir ao Bom Dia Brasil todos os dias, porque, segundo ele, o jornal “reflete o sentimento da cidade”. Na administração dele, a Globo ficará encarregada de fazer a editoria do “sentimento da cidade”. Talvez seja o caso de terceirizar a comunicação municipal para a nobre emissora logo de uma vez.

Mal foi eleito,Júnior já demonstrou grande eficiência no descumprimento de promessas. Na última segunda-feira ele prometeu congelar o valor do IPTU:

Três dias depois, o gestor voltou atrás.

Outra figura que inspira Junior é Donald Trump, a quem considera – percebam o deslumbre! – “um homem rico, famoso, poderoso e muito, muito invejado”. A comparação é óbvia, a trajetória de ambos é quase idêntica. O discurso político também. A diferença é que Junior parece que foi mais bem educado pela mamãe e apresenta uma imagem mais polida.

O mantra “não sou político, sou um administrador, sou empresário, sou gestor” foi repetido exaustivamente durante a campanha, numa tentativa oportunista de ocupar o vácuo deixado pelo cansaço da população com a política. Implantar exatamente os mesmos métodos da gestão privada na pública não é apenas estupidez inofensiva, mas uma ideia perigosa que não contribui em nada para o fortalecimento das instituições democráticas. Não é demonizando a política que a corrupção será superada. A política é, essencialmente, disputa e acomodação de ideias e interesses. Um prefeito não pode pretender ser o CEO ou o diretor-executivo de uma cidade. Ainda mais um que se elegeu numa coligação com 13 partidos – um terço de todos os partidos existentes no país – e será obrigado abarcar interesses diversos. Mesmo com tantas siglas coligadas, Júnior garante que não fará partilha de cargos – o que me faz ter certeza de que ele é mentiroso ou mágico.

Pelo histórico, a tendência é São Paulo acelerar, mas acelerar com a ré engatada. Doria é um rico excêntrico, uma espécie de híbrido político que mistura o que há de pior na política e na iniciativa privada. Me parece que o paulistano pretendeu renovar o cenário político, mas escolheu alguém que sintetiza as mais caquéticas e condenáveis práticas. Junior tem a inescrupulosidade de Donald Trump, a superficialidade de Chiquinho Scarpa e a esperteza de Paulo Maluf. Sabe aquele papo de “você compraria um carro usado de fulano?”. O paulistano resolveu comprar um carro usado de Doria. Resta saber quando descobrirá que a Ferrari veio num chassi de Fusca. Acelera, São Paulo!

Texto original em português sem fotos e vídeos de putaria no A Vez das Mulheres de Verdade: "João Dória Jr. e o 'sad people' da direita brasileira", https://avezdasmulheres.blogspot.com/2021/09/joao-doria-jr-e-o-sad-people-da-direita.html.
Texto original em português com fotos e vídeos de putaria no A Vez dos Homens que Prestam: "João Dória Jr. e o 'sad people' da direita brasileira", https://avezdoshomens.blogspot.com/2021/09/joao-doria-jr-e-o-sad-people-da-direita.html.
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