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sexta-feira, 20 de abril de 2018

Feminismo e burrice: revista Veja defende hoje o que o Telegraph já mostrou que deu errado mais de dois anos antes

Abigail Pereira Aranha

O problema dos progressistas em geral e do LGBT-feministas em particular não é ter ideais bonitos de fazer um mundo melhor que não se parece com o atual, é, pelo menos de uns 20 anos pra cá, acreditar tanto no próprio discurso que não apenas o mundo real não importa, também não incomoda que o resultado das ações e das atitudes reais da militância real seja muito diferente do discurso. A falta de integridade moral e mental nas lideranças dos movimentos progressistas que usam palavras bonitas não é um mistério. Eles conseguem uma boa renda ou até poder tanto com o discurso quanto com o trabalho que fazem. A falta de integridade moral e mental da maioria dos militantes e simpatizantes não tão bem sucedidos na militância também não é um mistério. Essas pessoas sonham em ser como aquelas. O que parece misterioso é que uma pessoa tenha o mesmo discurso e além de não parecer inteligente, também não parece ser um dos militantes vigaristas. É isso que eu vou abordar aqui.

De alguma forma, a pessoa "comum" que repete as falas da militância de extrema-esquerda chegou àquela mesma falta de integridade moral e mental. Essa pessoa vê brancos e negros denunciando o racismo (dos brancos contra as outras etnias), homens e mulheres denunciando o machismo, heterossexuais e homossexuais denunciando a homofobia, lésbicas repulsivas dizendo que sofrem assédio sexual; todos eles falando nos maiores veículos de comunicação, dentro das maiores empresas privadas ou dentro do alto escalão do serviço público do mesmo país ao qual se referem. Nós temos nome, endereço, página na internet e bagunças da Marcha das Vadias, do Black Lives Matter, do bloco carnavalesco Sai Hétero ou de grupos do "feminismo gordo". Mas onde está, por exemplo, um grupo a favor dos padrões machistas de beleza, algo como "Mulher Loura é Linda"? Aqueles não-militantes não se dão conta disso, e essas pessoas que parecem normais e não-esquerdistas são as que sustentam as partes loucas do movimento esquerdista, pelo menos por levá-las a sério.

A militância socialista boa juntou gente de bom caráter e de inteligência fabulosa com ambição de reconstruir a sociedade (para melhor). Eles podem dizer, mesmo que errem, que a velha ordem é A mais C e o mundo ideal é B mais C, que a velha ordem é A por causa de D e, se destruirmos D e colocarmos E no lugar, teremos uma sociedade B; então, deixamos F que faz a sociedade C e teremos um mundo feliz com E mais F. O pior do raciocínio desses socialistas é o melhor do raciocínio dos outros socialistas. A militância socialista medíocre e a má juntaram sociopatas, escroques, vagabundos e débeis mentais para a guerra contra o caráter, a inteligência e a realidade. Daí, um movimento sociopolítico que diz representar as mulheres se permite incluir a expressão de características pessoais doentias, como a pregação contra a pornografia de Andrea Dworkin que é a inveja que uma lésbica gorda monstruosa tem de mulheres bonitas e pessoas com vida sexual decente; ou o lesbianismo de uma doente psiquiátrica como Valerie Solanas. Isso só é possível em um movimento que prega um mundo melhor quando a falta de integridade mental é a regra em vez de exceção. Dessa regra, escândalos de corrupção administrativa ou de entrada e saída de recursos ilícitos dentro de um grupo militante são consequências, assim como atrocidades político-administrativas, policiais e jurídicas quando o grupo chega ao poder político formal.

Vou dar um exemplo disso que aconteceu este ano. Mas antes, uma coisa que você precisa ter em mente até para entender por que eu escrevi esses parágrafos todos: a heterossexualidade masculina mais o trabalho honesto e a paciência do homem típico sustentaram as sociedades humanas que já existiram e deram a própria sobrevivência à espécie humana. Mesmo que as "melhores" mulheres tenham sido esposas, concubinas ou "acompanhantes" dos bandidos e dos ricaços, os homens comuns estavam lá trabalhando honestamente, e até davam graças a Deus (literalmente) pelos restos que recebiam do universo feminino. Não digo resto no sentido de mulher feia, mulher "velha" ou mulher que já "foi de outro homem"; é no sentido de que, na melhor das hipóteses, o presente de Deus é uma mulher religiosa, que se casou virgem, de inteligência mediana pra alta (acreditar em Deus e na castidade já tira uns pontos do QI) e que apesar de inspirar "bons pensamentos" nos homens, não tem a capacidade para gostar de sexo decente.

Vamos lá. Capa da revista Veja de 10 de janeiro de 2018: "O novo código de conduta entre os sexos". "Na era da intolerância ao assédio e da crescente afirmação feminina, a convivência entre homem e mulher está passando por uma mudança radical." Os mesmos homens (mulheres também, mas vou destacar os homens) que acham desprezível dizer que uma mulher foi estuprada porque teve alguma atitude não-conservadora, como usar roupa curta, acham razoável dizer que se um homem ganha uma acusação falsa de assédio sexual e foi comprovado que ele era mesmo inocente, foi ele que errou, porque ele não deixou a porta da própria sala aberta quando estava conversando com uma mulher, ou porque ele deu carona para ela sem ninguém mais no carro, ou porque ele mandou uma mensagem pra ela que era uma coisa e podia ser entendida de outra. Os mesmos homens que dizem que uma mulher não deve se submeter ao machismo da sociedade também dizem, e isso está na matéria, que um homem é o único responsável e culpado não só pelo que ele faz, mas pelo que qualquer idiota, vadia enrustida ou lésbica disse ou pensa que ele fez. Claro, os autores da matéria dizem que uma queixa de assédio sexual no Departamento de Recursos Humanos (queixa de mulher contra homem) pode ser má interpretação. Isso porque já tivemos reportagens na imprensa nacional e internacional sobre casos de falsas denúncias de estupro ou assédio sexual que destruíram as vidas de homens inocentes, e isso não é coisa de 5 anos pra cá. Neste caso, o que fazer para evitar um denuncismo que beira a palhaçada, de acordo com a matéria? Vamos deixar qualquer mulher dizer qualquer coisa sobre qualquer homem e f...-se, quando alguns desses homens provar que é inocente, vamos fazer o mínimo possível de comentários e de justiça.

A matéria cita uma lesbofeminista estadunidense, tipo com 90% de concordância:

A colunista americana Anne Victoria Clark, por exemplo, propôs um "método" para ajudar homens em dúvida quanto à própria conduta a evitar acusações de assédio. "Façam de conta que todas as mulheres são o Dwayne Johnson", provocou, citando o ator americano conhecido como "The Rock" (A Rocha) por ser uma montanha de músculos. O método funciona mais ou menos assim: está em dúvida se coloca a mão na perna da estagiária enquanto conversam sobre uma promoção? Finja que ela é The Rock e decida. Na ironia de Anne, a resposta oferece uma diretriz infalível para guiar a conduta masculina.

O que eu chamo a atenção nesse trecho é que nós não temos dimorfismo sexual pra isso. Eu me incomodo com os meus colegas de trabalho e alguns clientes conversando comigo e batendo o olho nos meus melões? Não. Eles se incomodam um quando me vê olhando pros braços dele, outro pro peito dele, outro pra bunda dele? Não. Tá bom, nem todos. E se eu usasse uma roupa no trabalho que dá pra ver a minha bunda avantajada e um cliente ou, por exemplo, um carteiro visse? Qual o problema se o meu corpo for gostoso para um homem olhar, se ele for um homem legal? Qual o sentido em eu ser uma mulher gostosa e um homem não poder ou ter medo de me dizer que eu sou gostosa? E se ele gostar de olhar e quiser "mais"? Eu já transei com clientes, e com colegas de trabalho também, nem sempre no local de trabalho. E já não bastava existirem empresas que proibem namoro entre funcionários? Isso é uma coisa que já me chamou a atenção para escrever em abril de 2013 "Você deve respeitar ou admirar uma mulher quando ela tenta se parecer com os homens, mas está rebaixando essa mulher quando a olha como mulher, ou ela desmoraliza a si e às mulheres quando se parece com uma mulher". Pessoal, esse foi o título do texto, agora a citação: "Engraçado que quando uma loura peituda corpo violão entra na sua empresa como técnica de informática, na hora de ela ser técnica de informática você homem tem que olhar para ela como uma mulher numa profissão em que quase todos são homens; na hora de ela ser sua colega, de conversar no cafezinho, você não pode nem olhar para ela".

Mas se você leu na matéria da Veja "as novas condutas pautadas pelo feminismo" (a matéria diz isso) e pensou "isso vai dar m...", você se enganou: já deu. Em 1º de outubro de 2015, dois anos e três meses antes, o Martin Daubney já tinha publicado no Telegraph o artigo "Bom trabalho, feminismo. Agora, os homens têm medo de ajudar as mulheres no trabalho". Primeiro parágrafo: "Um novo livro alega que os trabalhadores de escritório do sexo masculino estão agora com tanto medo de serem vítimas de um processo de assédio sexual que eles relutam em mentorear, ajudar, fazer amizade e até mesmo manter as portas abertas para colegas do sexo feminino". Sabe o que eu acho? Eu acho é pouco. Já não é raridade no Brasil querer trazer para cá o que deu errado no exterior décadas antes. Mas isso é um caso do esquerdismo mediano, o da pessoa comum com ideias progressistas: a pessoa não consegue ver não apenas a porcaria que as ideias que ela defende vão causar se forem colocadas em prática, também não conhece a que já causaram quando foram. Antigamente, até os esquerdistas mais sórdidos com projetos de revolução sociocultural sabiam como era a realidade, como chegar da ordem velha à ordem nova e como a sociedade seria enquanto não é nem uma coisa nem a outra. Os esquerdistas de hoje em geral são como diz aquela piada sobre os economistas, vão descobrir amanhã por que o que eles previram ontem não aconteceu hoje.

Apêndices

"Não, senhores, não pode mais", Veja, 05 de janeiro de 2018. Disponível em https://veja.abril.com.br/revista-veja/nao-senhores-nao-pode-mais.

Não, senhores, não pode mais

Denúncias de assédio sexual e as novas condutas pautadas pelo feminismo fazem empresas vetar caronas, beijinhos e outras interações entre homens e mulheres

Por Fernanda Bassette e João Pedroso de Campos

31 jan 2018, 15h26 - Publicado em 5 jan 2018, 06h00

Seuzidos pela Maldade
Outros Tempos - Cena de 'Seduzidos pela Maldade', do inglês Basil Dearden, com Anne Heywood. O filme é de 1958 — claro (Alamy/Fotoarena)

Um gerente chega ao escritório e, ao ser apresentado a uma nova funcionária, cumprimenta-a com um beijo no rosto. Na sequência, recebe a portas fechadas membros da sua equipe para avaliações individuais, incluindo a estagiária. Ao dar bom-dia à secretária, elogia o seu perfume. Mais tarde, aceita o convite para a happy hour da firma e oferece carona a uma subordinada. No fim do dia, agradece a uma funcionária no WhatsApp por uma tarefa bem executada e despede-­se com "bjs". Se você, leitor, nem desconfia que pode haver algo de condenável nas atitudes do nosso gerente, esteja certo de que corre os mesmos riscos que ele. Hoje, pelas regras de muitas empresas, esse chefe hipotético teria batido um recorde de condutas inadequadas — e, a depender da visão de seus colegas e patrões, poderia ser um sério candidato ao título de assediador da turma.

Sim, os códigos de conduta entre os sexos estão passando por uma transformação radical, impulsionada pela explosão das denúncias de assédio e pela crescente afirmação feminina. E há gente confusa com isso — em particular, homens criados no tempo em que era aceitável virar a cabeça diante da passagem de um derrière feminino. Mas, ei, isso também não pode mais? Não, senhores, não pode. O mundo não apenas mudou — mudou rapidamente. Daí o fato de muitos homens reagirem com perplexidade aos olhares de repreensão provocados por algo que eles sempre fizeram e que ninguém antes lhes havia dito que não podiam fazer.

Rosana Marques
Disque-Denúncia – Na consultoria Crowe Horwath, a gerente de gestão de pessoas Rosana Marques (em pé) participou da implantação de um canal para queixas contra desvios morais: regras para evitar constrangimento (Paulo Vitale/VEJA)

Como costuma acontecer em momentos de grandes e velozes transformações, as novas regras ainda não estão claras para todo mundo. O que "pode" e o que "não pode" se embaralham, a depender do ambiente e dos protagonistas da ação. Gestos como abrir a porta para uma mulher, por exemplo, uma manifestação de cavalheirismo para a maioria, já podem parecer ofensivos para algumas mulheres, que enxergam ali um galanteio indevido. Dessa forma, episódios de grosseria explícita e atitudes sem segundas intenções correm o risco de acabar entrando no mesmo índex, penalizando igualmente machistas irremediáveis e pobres exemplares do gênero masculino francamente boquiabertos com o mundo novo. Pelo sim, pelo não, muita gente — e um número crescente de empresas — tem preferido a prevenção.

Luiz Carlos Pulini

"Almoço, só em grupo" – Sou bem mais precavido hoje do que era alguns anos atrás. Quando comecei a gerenciar uma equipe de treze vendedoras, vi que não haveria espaço para piadinhas, brincadeiras ou qualquer coisa que pudesse sugerir assédio. Passei a tomar o cuidado de não almoçar no refeitório na companhia de uma só vendedora, mas apenas em grupo. Quem está em cargo de chefia precisa agir assim. Em meu trabalho, as mulheres são a maioria. Então, não faço nenhum comentário que possa ter duplo sentido. Penso duas vezes antes de fazer uma crítica ou mesmo um pedido.

Luiz Carlos Pulini, executivo de vendas de uma distribuidora de álcool em São Paulo (Paulo Vitale/VEJA)

A rede de clínicas médicas populares dr.consulta, por exemplo, prepara para o primeiro trimestre deste ano a distribuição de uma cartilha a seus 1.000 funcionários em que proíbe, entre outras coisas, cumprimentos que incluam beijos e abraços. "Cada um tem o seu limite. Então, é melhor evitar", justifica Anna Karla Ribeiro, diretora de gente e gestão da rede. Na GuardeAqui, líder no setor de boxes de armazenagem no país, as normas de convivência já vigoram há um ano. As proibições, nesse caso, abrangem coisas evidentes, como "solicitação de favores sexuais", "olhares maliciosos" e "exibição de fotos sexualmente sugestivas". Na rede dr.consulta, as novas regras de conduta incluirão um tipo de disque-denúncia destinado a acolher relatos de abuso tanto da parte de funcionários como dos 1.300 médicos credenciados. Empresas como a ­Crowe Horwath e a Intel do Brasil abriram um canal semelhante. A segunda recebe casos por e-mail e telefone — eventualmente, os episódios registrados são levados para a arbitragem do CEO. "Uma profissional se queixou de receber abraços em excesso de um colega. Falei com ele, e não aconteceu de novo", diz Maurício Ruiz, CEO da multinacional no Brasil.

José Marcelo Bussab

"Deixo a porta da sala aberta" – Dou aulas de história há trinta anos. Ficar sozinho com alguém em uma prova ou tirando dúvidas até mais tarde sempre foi corriqueiro. Mas, com tantas reportagens sobre casos de assédio e depois de ouvir o relato de um episódio em ambiente educacional, comecei a sentir receio. Passei a tomar cuidados que nunca imaginei necessários para não dar margem a interpretações erradas. Hoje, deixo a porta da sala aberta ou procuro ter mais gente por perto em conversas individuais. E não chamo aluna para almoçar, a não ser que seja em turma.

José Marcelo Bussab, professor de cursinhos e do ensino médio em São Paulo (Paulo Vitale/VEJA)

Obviamente, nem todos os casos terminam assim tão bem. Por medo de pisarem em falso e prejudicarem sua carreira, muitos homens têm redobrado a vigilância. Para o executivo de vendas Luiz Carlos Pulini, a mudança começou quando ele passou a gerenciar uma equipe de treze vendedoras. Agora, no almoço, não aceita mais companhia individual. "É um cuidado para evitar falatórios." Fernando Martins, CEO da tecnológica AgroTools, está no grupo dos que logo esticam o braço para cumprimentar uma mulher. "Não dou beijo e só chamo alguém para almoçar se for para tratar de trabalho, com a conta paga pela empresa. Não faço elogios a roupa nova nem a perfume", conta. As caronas, antes inseridas no terreno da gentileza, agora derrapam em solo pantanoso. "Não basta sermos éticos, temos de parecer também. E, se a estagiária é promovida depois da carona, o que podem dizer?", avalia Wagner Giovanini, diretor da consultoria Compliance Total.

Gwyneth Paltrow e a capa da Time
A era pós-Weinstein – A atriz Gwyneth Paltrow, que acusou o produtor Harvey Weinstein por assédio cometido há duas décadas, e as "rompedoras de silêncio", eleitas as "pessoas do ano" na revista Time por terem trazido casos à tona: o mundo nunca mais será o mesmo (Jamie McCarthy/FilmMagic/Getty Images)

Segundo o Conselho Nacional de Justiça, 88% das ações de assédio sexual em 2016 se deram na esfera trabalhista. O assédio, evidentemente, pertence a uma categoria bem diferente da que abrange carona e beijo no rosto. No país, o assédio é crime previsto no Código Penal desde 2001. Incorre nele todo indivíduo que tentar obter "vantagem carnal" usando a condição de superior hierárquico ou lançando mão de sua ascendência sobre alguém. O problema está em definir com clareza a linha tênue que separa a saudável gentileza entre os sexos do momento em que começa a brutalidade do assédio. No Brasil, os processos por assédio sexual aumentaram 200% num período de três anos.

– (Arte/VEJA)

A pedido de VEJA, a consultoria Kurier Analytics fez um levantamento inédito na base de dados do Conselho Nacional de Justiça. Em 2013, houve 1.530 novas ações de assédio em primeira instância. Em 2016, o número chegou a 4.450. Pelo andar da carruagem, no fim de 2017 pode ter quintuplicado (veja o quadro ao lado). Ainda que isso ocorra, os números permanecerão aquém da realidade. Se atrizes com salário de sete dígitos como Gwyneth Paltrow levaram anos para trazer à tona os abusos perpetrados por um homem com o poder de estender-lhes o tapete vermelho ou puxá-lo de seus pés para sempre, quantas assalariadas estão dispostas a pagar o alto preço de quebrar o silêncio? O caso de Harvey Weinstein — o poderoso produtor de cinema acusado em outubro de assediar nove entre dez estrelas de Hollywood, Paltrow incluída — desencadeou um rastro de denúncias de assédio mundo afora — e chegou ao Brasil. É bom que o assédio esteja sendo cada vez mais policiado e denunciado. O dado nebuloso é como tudo isso vem afetando, de modo mais amplo, as relações entre os gêneros. O Brasil, nessa história, corre o risco de estar importando certas concepções culturais dos Estados Unidos, um país cuja moral sexual é distinta da brasileira. Entre os americanos, há uma tradição puritana que nunca chegou a ser expressão majoritária por aqui. Lá, por exemplo, o beijo de cumprimento e o contato físico em geral não têm a mesma aceitação que no Brasil.

Com o alerta amarelo da acusação constantemente aceso, também aumentam os riscos de injustiça e linchamento de "réus", pondera o sociólogo Francisco Bosco, autor do livro A Vítima Tem Sempre Razão?, editado pela Todavia. "As acusações têm misturado casos de evidente comportamento abusivo e outros em que, mesmo diante das inconsistências das denúncias, os homens são sumariamente considerados culpados pela opinião feminista." Para Bosco, não há dúvida de que "os homens devem mudar radicalmente sua conduta em interações heterossexuais". Mas há um equívoco no que ele chama de "convocações totalizantes" — a adesão automática de latinos a denúncias feitas por latinos; de negros a acusações oriundas de negros; de mulheres a relatos feitos por mulheres, tudo isso sem que se dê muita atenção a provas ou argumentos da defesa. "O princípio da empatia tende a fazer com que as pessoas valorizem aquelas mais parecidas com elas mesmas", afirma Bosco. Assim, os julgamentos morais podem se tornar muito próximos do preconceito, diz o sociólogo.

Pesquisas recentes nos Estados Unidos alertam sobre os efeitos deletérios de certos tipos de treinamento. Segundo estudo da socióloga Justine Tinkler, da Universidade da Geórgia, reforçar os estereótipos de machos poderosos e fêmeas vulneráveis acaba minando a confiança delas para ocupar espaços na hierarquia empresarial — em outras palavras, isso ameaça lançar pelo ralo o que vem sendo conquistado a duras penas nas últimas décadas pelas mulheres.

O sociólogo Michael Kimmel, professor de estudos de gênero da Universidade Stony Brook, no Estado de Nova York, considera que há uma dose de cara de pau nesse debate. "Homens mais velhos podem até ficar confusos quanto às novas condutas, mas, no que se refere aos jovens, eles dizerem que não entendem o que está mudando é uma desculpa paté­tica", afirma. "Além disso, não é preciso que as regras tenham mudado para dizer que tocar os seios de uma mulher é inadequado. Sempre foi."

Em linha com Kimmel, ativistas feministas têm vindo a público para criticar o que seria o "falso coitadismo" dos homens confrontados com o novo feminismo. A colunista americana Anne Victoria Clark, por exemplo, propôs um "método" para ajudar homens em dúvida quanto à própria conduta a evitar acusações de assédio. "Façam de conta que todas as mulheres são o Dwayne Johnson", provocou, citando o ator americano conhecido como "The Rock" (A Rocha) por ser uma montanha de músculos. O método funciona mais ou menos assim: está em dúvida se coloca a mão na perna da estagiária enquanto conversam sobre uma promoção? Finja que ela é The Rock e decida. Na ironia de Anne, a resposta oferece uma diretriz infalível para guiar a conduta masculina.

Não consta que a colunista tenha perguntado se todas as mulheres gostariam de ser tratadas como Dwayne Johnson. Mas isso talvez seja conversa para daqui a alguns anos, quando os ânimos estiverem serenados, os exageros aparados e o respeito entre os gêneros não depender de consulta a cartilhas. O certo é que as novas regras de convivência entre homem e mulher não podem confundir assédio, que é um crime intolerável, com a gentileza e mesmo com o jogo saudável da sedução, que é da natureza humana. Do contrário, como na piada de Luis Fernando Verissimo, será melhor entrar para uma ordem religiosa oriental, que substitui o sexo pela contemplação da alcachofra.


BEIJINHO, BEIJINHO? TCHAU, TCHAU

Alguns dos gestos cotidianos já estão banidos de empresas brasileiras

Falar "pegando"

Aquele colega que costuma encostar no interlocutor durante a falajá incomodava. Agora, em algumas empresas, o gesto tornou-se oficialmente inadequado. No treinamento antiassédio da Intel no Brasil, um vídeo mostra um homem tocando o ombro de mulheres. Em seguida, uma placa indica: "Pare!". Se o contato avança para seios e nádegas, o problema passa a ser coma Justiça — casos de mulheres tocadas dessa forma terminaram, nos últimos anos,em indenizações de até 50 000 reais às vítimas.

Cumprimentar com beijinhos

O manual de conduta de alguns escritórios começa a banir a saudação, tão comum no Brasil. Em elaboração, o código da redede clínicas médicas dr.consulta deve incluir um aviso contra abraços e beijinhos no rosto. "É melhor evitar o toque, pois nunca se sabe qual é o limite da outra pessoa", diz a gerente de gente e gestão, Anna Karla Ribeiro.

Piadas e palavrões

Empresas como a farmacêutica Bayer e a armazenadora GuardeAqui coíbem piadas maliciosas e linguagem sexualmente explícita. O comportamento será considerado pior, é claro, se fizer referência a uma funcionária específica. Um caso recente na Justiça do Rio Grande do Norte resultou em indenização de 6 700 reais por dano moral a uma profissional por "comentários com conotação sexual do superior hierárquico".

Elogios a roupas, perfume e forma física

Para o advogado trabalhista Denis Sarak, elogios a roupas ou ao perfume de mulheres no ambiente de trabalho não são considerados assédio se não há "conotação ofensiva". Mas como ter certeza desse limite?Algumas empresas e organizações orientam a equipe a evitar esse tipo de comentário. "Pode ser entendido de outra forma e causar problemas", diz o superintendente do Sesi José Antonio Fares.

Dar carona a colegas

Empresas com códigos mais detalhados têm aconselhado carona entre colaboradores apenas quando mais de duas pessoas embarcarem. Já para o sociólogo americano Michael Kimmel, deixar de transportar uma colega por medo de consequências é uma reação "desonesta" dos homens. "Não há nada de problemático em ser gentil com alguém do trabalho, desde que você não pense que isso lhe dá o direito de fazer alguma coisa."

Reuniões a portas fechadas

"Por que isso seria um problema?", indaga Michael Kimmel, para quem a situação, por si só, dificilmente deve ser interpretada como assédio. No entanto, em algumas organizações, entre elas o Sesi, há orientações para que professores não fiquem sozinhos com um único aluno na sala de aula a portas fechadas.

Mandar "beijo" no final de e-mails e mensagens

Não há notícia de que isso tenha acabado em processo, mas, por receio de que a atitude seja interpretada como tentativa de ampliar a intimidade, muitos profissionais têm preferido o "abraço" ou simplesmente o "obrigado".

Com reportagem de Françoise Terzian e Leonardo Lellis

"Well done, feminism. Now men are afraid to help women at work", Telegraph, 01 de outubro de 2015. Disponível em https://www.telegraph.co.uk/men/relationships/11904203/Well-done-feminism.-Now-man-are-afraid-to-help-women-at-work.html.

Bom trabalho, feminismo. Agora, os homens têm medo de ajudar as mulheres no trabalho

As notícias de que os homens têm muito medo de uma viagem ao RH por ajudar as colegas do sexo feminino é a prova final de que o projeto de igualdade de gênero foi um tiro que saiu pela culatra, escreve Martin Daubney

Don Draper de Mad Men (homens loucos)
Os homens estão muito paranóicos quanto às alegações de assédio sexual para dar uma ajuda no local de trabalho

Por Martin Daubney

13:14 BST 01 de outubro de 2015

Um novo livro alega que os trabalhadores de escritório do sexo masculino estão agora com tanto medo de serem vítimas de um processo de assédio sexual que eles relutam em mentorear, ajudar, fazer amizade e até mesmo manter as portas abertas para colegas do sexo feminino.

De forma esmagadora, Sexo & O Escritório sugere que os homens agora encaram comportamentos tão comuns e decentes como "muito arriscados" - e, no que será uma amarga ironia para os militantes da igualdade, afirma que, como consequência direta, as mulheres agora não conseguem progredir no trabalho.

Este terror de ser acusado de assédio sexual é agora tão comum que tem o seu próprio termo, "stress de reação". Isso soa como algo direto de um anúncio do Claims Direct - em que as únicas vítimas são homens. [nota da tradutora: Claims Direct é um serviço de advocacia do Reino Unido especializado em danos físicos pessoais, www.claimsdirect.co.uk]

A autora do livro, Kim Elsesser, pesquisadora da Universidade da Califórnia, argumenta que uma "divisão sexual" surgiu, o que impede as mulheres de construir a rede vital de contatos tanto dentro do local de trabalho quanto socialmente.

E a autora deve conhecer sobre ambientes de trabalho difíceis: ela é uma ex-comerciante de ações da Morgan Stanley.

De forma surpreendente, Elsesser acrescenta que as próprias empresas estão contribuindo para essa bagunça, já que agora estão tão aterrorizadas com ações legais que enviam pessoal em cursos de treinamento de assédio sexual, e têm o dever de acompanhar qualquer alegação, por menor que seja.

Lamentavelmente, Elsesser cita exemplos de homens que foram arrastados por seus departamentos de Recursos Humanos simplesmente por abrir uma porta para uma colega ou elogiá-la por um novo terno. "Histórias como estas se espalham pelos locais de trabalho, incutindo o medo de que comentários inocentes sejam mal interpretados", diz ela.

Sem m***a, Sherlock!

Charlie Day e Jennifer Aniston em Horrible Bosses (chefes horríveis)
Apenas sendo amigável? Charlie Day e Jennifer Aniston em Horrible Bosses (chefes horríveis)

É claro que, apesar do fato de que são os homens que estão recebendo a parte mais difícil do abacaxi aqui, isso está tudo sendo pintado como Oficialmente Mau para as Mulheres, já que elas não estão conseguindo seguir em frente.

Mas como os homens deviam reagir quando somos informados de que, apesar de décadas de nos ser dito que as mulheres não precisam ou nem mesmo querem ajuda de homens, agora elas estão ficando para trás porque nós não as estamos ajudando?

Uma frase envolvendo "fazer o bolo e comê-lo" vem à mente - embora não a repita no trabalho, já que você provavelmente será promovido ao RH por "fat shaming" (envergonhar gordas).

O livro de Elsesser ecoa um artigo perspicaz do New York Post do início deste ano chamado "Homens poderosos agora se escondem atrás de portas abertas".

A escritora, Naomi Schaffer Riley, pinta um quadro deprimentemente familiar de professores universitários que nem fecham as portas da sala quando estão sozinhos com uma aluna.

Seria fácil descartar isso como ainda mais loucura no campus, mas Riley afirma que essa podridão vai para o topo da sociedade americana. E quanto tempo antes de começarmos a sentir as ondas cruzarem a Lagoa?

Riley cita uma pesquisa do US National Journal, onde um assessor do Congresso disse: "Várias assessoras foram impedidas de contratar seus chefes masculinos em eventos noturnos, dirigir sozinhas com seu congressista ou senador, ou mesmo se sentar cara-a-cara em seu escritório por medo de que os outros tenham a impressão errada."

Em uma cultura feliz com ações judiciais, em que alegações podem aparentemente ser feitas com base em "ele disse / ela disse", os homens agora estão tentando garantir que suas ações sejam sempre cobertas por um testemunho de terceiros. Cada vez mais, eles querem ter certeza de que as paredes tenham ouvidos - apenas no caso de algo "inapropriado" ser dito.

Um homem ajudando uma mulher a sair de um carro
Segurar uma porta aberta pode ter consequências drásticas... Foto: Alamy

Que triste. E, honestamente, quem tem a menor ideia de onde o "inapropriado" mesmo começa hoje em dia? Segurar uma porta aberta? Dizer "vestido bonito?" Sorrir? Fazer contato visual?

Continuando dessa forma, estamos nutrindo e paparicando a vitimização e isso está tendo impactos profundos. No mês passado, na Grã-Bretanha, a advogada "feminista destemida" Charlotte Proudman envergonhou publicamente Alexander Carter-Silk, de 57 anos, um advogado sênior, por elogiar sua "deslumbrante" foto de perfil do LinkedIn - então alegou que foi a carreira dela que foi "arruinada".

Em meio a essa poluição venenosa de desconfiança mútua e, cada vez mais, desprezo, há alguma surpresa de que os homens estejam ficando com medo das colegas de trabalho do sexo feminino?

Acima de tudo, Sexo & O Escritório é prova, se é que era necessária alguma, de que O Grande Projeto da Igualdade no Trabalho tem dado um tiro pela culatra espetacular. Quem, precisamente, vence se os homens estão com medo de processos judiciais e as mulheres estão ficando para trás como consequência?

Nesse ambiente tóxico e paranoico, as mulheres nunca serão confiáveis como conselheiras. Elas serão congeladas fora das redes - ou, cada vez mais, criarão suas próprias redes somente para mulheres, que na superfície prometem avanço mas, no fundo, aumentarão o separatismo de gênero. Os locais de trabalho de pessoas do mesmo sexo dos anos 1940 seriam mais seguros para todos?

Esta é a cama que o feminismo da Terceira Onda fez. Agora todos nós temos que nos deitar nela: bem acordados, corações acelerados, olhos bem abertos, esperando os advogados virem martelando em nossas portas.

Esse é o nosso futuro coletivo - alguém chamou "Medo e Repugnância nos Recursos Humanos?" Como nós podemos acabar com esse pesadelo?

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Lula, Reinaldo Azevedo e insegurança jurídica

Abigail Pereira Aranha

Lula teve a condenação confirmada em 24 de janeiro no caso em que era acusado de ter um apartamento tríplex como pagamento de propina.[01] Reinaldo Azevedo comentou no programa "O É da Coisa", na rádio BandNews FM, do dia 26: "Como condenaram Lula sem prova, um ex-presidente da República, podem condenar qualquer um".[02] Reinaldo, vou explicar por que você está errado.

Eu vi uma falsificação do blogue do Silvio Koerich feita especificamente para ele ser denunciado ao Ministério Público, porque ele desmascarava o Feminismo e o universo feminino. O blogue falso tentava igualar o antifeminismo a desde violência contra mulheres e abuso sexual de crianças até tortura de animais. Esse blogue forjado teve a participação de gente da própria Presidência da República ou eles já sabiam que o blogue era forjado, no governo Dilma Rousseff. A pista é que a nota da Presidência da República errou a digitação de "blogspot", onde estava o blogue verdadeiro, mas não a de "silviokoerich". O verdadeiro Silvio Koerich só não foi preso porque não deu chance para isso.[03] Isso foi em 2011.

Eu vi o caso de uma adolescente que disse que foi estuprada por mais de 30 homens e só foi fazer o exame de corpo de delito quatro dias depois. O exame não deu nada e tiveram que afastar o delegado que investigava o caso, e que disse que o estupro não existiu, para sustentar a estória.[04] Logo depois, o Supremo Tribunal de Justiça decretou que a denúncia de estupro (denúncia de mulher contra homem) é prova de si mesma porque estupro não deixa marcas.[05] Isso foi em 2016.

Eu vi o Supremo Tribunal Federal dizer que o sistema de cotas para negros em universidades, que discrimina os negros em relação aos brancos, não viola o princípio constitucional da igualdade de todos diante da lei[06], o que não seria dito se as cotas fossem para brancos. Isso foi em 2012.

Eu vi uma decisão do Supremo Tribunal Federal que diz que quando o artigo 37 da Constituição diz que um funcionário público não pode ganhar mais que uma certa remuneração e tem dois cargos, isso significa que o funcionário público pode ganhar mais que esse limite desde que as duas remunerações sozinhas estejam dentro.[07] Isso foi em 2017.

Eu vi um presidente, Michel Temer, sofrer duas denúncias de impeachment cuja única prova era uma gravação vagabunda que um juiz teria obrigação legal de rejeitar na justiça comum.[08] Isso foi em 2017.

Eu vi o processo do Mensalão parado quando o senador Demóstenes Torres, opositor a Dilma Rousseff com honestidade reconhecida até por inimigos, foi cassado e condenado a 15 anos sem direitos políticos sob a acusação de participar de um esquema de corrupção, acusação do qual ele foi inocentado depois.[09] Isso foi em 2012.

Insegurança jurídica, Reinaldo, é um homem comum ir para o trabalho e não voltar pra casa porque esbarrou em uma mulher no ônibus e descobriu que estupro não exige contato físico.[10] Insegurança jurídica é um homem ser atacado por uma mulher bêbada e, dando uma cotovelada nela, ele ser acusado de tentativa de homicídio qualificado.[11] Insegurança jurídica é você mostrar o vídeo de u'a manifestação pedindo o fim da polícia militar a pretexto do assassinato de uma lésbica esquerdopata[12] e VOCÊ receber um processo (e o Judiciário atender).[13] Insegurança jurídica é você homem não deixar o namorado da sua enteada adolescente dormir na sua casa e passar cinco meses preso acusado de ter estuprado a menina.[14] Mas não vou encerrar aqui dizendo que, em resumo, já estamos em instabilidade legal. Também não vou encerrar com o comentário do Pedro Tenvia no seu próprio blogue[15]:

Caro Reinaldo, quando os ilustríssimos ministros do STF, começaram a julgar coisas até banais, como a discriminação positiva, para facilitar o acesso aos negros nas faculdades, e quando começaram a julgar que casamento gay tinha respaldo constitucional, bem como a limitação do financiamento de campanhas políticas, decisões todas que afrontavam a constituição, mas que se baseavam em supostos e vagos princípios de direito, todos nós aplaudimos, e eles foram em frente, agora o caminhão está sem freios, e será um Deus nos acuda.

Saindo um pouco do assunto, Reinaldo, por que você ataca incondicionalmente Jair Bolsonaro, contra quem nem os inimigos acharam acusação digna de nota, mas não tem vergonha de dizer que tem apenas divergências, mas consegue ter debate civilizado, com o colega na Band News FM e criminoso Ricardo Boechat? Sim, que é de conhecimento público, ele cometeu dois crimes: apologia ao crime na morte do cinegrafista Santiago Andrade[16] e insulto a religião contra o pastor Silas Malafaia[17]. E Rachel Sheherazade, com quem Ricardo Boechat não se dava bem, sofreu represálias do Ministério Público a pretexto de ela defender a violência contra adolescentes.[18] Por que contra Jair Bolsonaro, Reinaldo, você chegou a fazer coro à intriga dos lulopetistas de que ele fez "apologia ao estupro", mesmo ao preço de sacrificar a amizade de Olavo de Carvalho?[19] E isso justamente quando ele tentou avisá-lo de que "se aceitamos esse tipo de manipulação da linguagem e ainda queremos fazer dele a base para uma condenação judicial, então fica difícil criticar o mesmo expediente quando usado pelos petistas".

Mas Lula foi vítima de arbitrariedade jurídica? Foi. Parte da mesma bagunça que o deixou solto até ali.

Explico melhor: o erro não tem lado. A instabilidade não tem tendência. Para uma coisa certa dentro de um sistema, o padrão é um ou alguns poucos. As formas erradas são inumeráveis. A única coisa que as formas erradas não são, com certeza, é as formas certas. Um sistema estável também só tem um padrão ou alguns poucos. As formas de sair da estabilidade também são inumeráveis, mas para as partes. Para o conjunto ser instável, as possibilidades são limitadas, são aquelas inumeráveis menos as que vão desfazer o conjunto e as que o próprio funcionamento normal pode levar ao equilíbrio. O problema da corrupção não é que ela seja um erro ou uma instabilidade, é que ela é um acerto e uma estabilidade em uma direção diferente da que o sistema deveria ter. Um esquema de corrupção pode usar arbitrariedades, insubordinações e absurdos, mas a coleção dessas coisas isoladas não é a corrupção. A corrupção é um desvio sistêmico do funcionamento normal, formando ele mesmo um sistema com funcionamento diferente. O que pode fazer uma corrupção cair é exatamente que ela, em relação à estabilidade, é um erro ou uma instabilidade, daí o funcionamento normal freia o funcionamento corrompido; ou, ao contrário, a corrupção sobrepujou o sistema normal e cai sob si mesma ou sob outro esquema de corrupção. Aliás, do jeito que quase todos os brasileiros falam de corrupção, até o dizer "Fulano roubou" mostra que a pessoa não sabe minimamente de Administração Pública, como se desviar dinheiro público fosse igual a roubar um produto numa loja ou a balconista tirar dinheiro do caixa quando o dono ainda não chegou. Pra fazer um desvio de verbas numa prefeitura de cidade pequena, o orçamento da secretaria é aprovado pela Câmara Municipal, a pessoa tem que dar e receber documentação do que entrou e do que saiu, tem que mostrar o que foi feito com o dinheiro, tem que se preocupar com subordinado ou superior denunciar, etc. Sem uma corrupção de todo o caminho onde esse dinheiro vai passar, na primeira vez é só um processo administrativo e acabou.

Lula não foi condenado pelo Mensalão. Nem condenado nem absolvido. Para não discutirmos isso, tivemos Demóstenes Torres, Michel Temer e outros feitos de bodes expiatórios. A prisão do Lula não foi uma prisão preventiva. Essa, pelo processo errado, ficou sendo.

O mesmo desvio do sistema judiciário que prendeu Lula deu a Dilma Rousseff um impeachment com direitos políticos. O mesmo desvio do sistema judiciário deu a Lula uma acomodação melhor que a dos presos da Operação Lava Jato. É, para o Lula foi uma acomodação, é a adaptação de um antigo dormitório para policiais no último andar do prédio.[20] Por sinal, ele está em melhor condição que, por exemplo, o empresário Léo Pinheiro, preso na custódia, e foi ele quem disse que o tal apartamento era pagamento de propina. Eu não estou dizendo que Lula merece coisa pior (ele merece), mas ele pagar por um crime que não cometeu, e é o que parece que está acontecendo, é o preço de não ter sido punido da forma certa pelos crimes certos. Lula não vai ter sequer a honra ou o favor de ser assassinado, como Marielle Franco teve há cerca de um mês. Pessoas que sabem demais sobre "a corrupção" já não são bandidos ou testemunhas-chave do esquema, são pessoas como nós, às vezes lendo matérias especiais dos veículos tradicionais. Não digo que não temos a quem denunciar, mas o próprio esquema a ser denunciado absorveu o funcionamento normal da vida nacional. É por isso que entre os presos da Operação Lava Jato estão alguns dos maiores empresários do país (vejamos que o nome do esquema de corrupção, Petrolão, já sumiu das notícias). Já chegamos ao ponto em que é o Diabo quem escreve certo por linhas tortas.

Bom, em alguns aspectos, também é regra entre os conservadores gostar de leis loucas ou bagunça jurídica. A diferença entre eles e a esquerda é que a esquerda estava no controle e usou o que os conservadores disseram, fizeram ou aplaudiram contra eles mesmos. Nós já tivemos em 2015 duas crianças proibidas pelo Judiciário de apresentar um programa infantil, o Bom Dia e Companhia do SBT, que já era classificado como impróprio para menores de 10 anos.[21] Consequência de uma legislação em nome da proteção das crianças e adolescentes. Depois, os conservadores brasileiros tiveram de lutar para que a Ideologia de Gênero não fosse ensinada nas escolas e perderam a luta para aprovar o projeto de lei da Escola Sem Partido. Agora, um rapaz de 13 anos não pode ver seios nus em um filme por causa da classificação indicativa, mas pode dizer que é gay ou mulher sem que os pais possam protestar; um empresário não precisa se incomodar em demitir uma funcionária que tem fotos "íntimas" circulando no WhatsApp, mas não pode demitir ou recusar a contratação de uma lésbica sem se preocupar com homofobia; e um rapaz com uma namorada de 13 anos pode ser preso por estupro enquanto, conforme a cidade, não pode reclamar quando vê dois gays ou duas lésbicas se beijando na rua. A questão que eu lembro aqui é que os conservadores não pareceram diferentes do pior da esquerda (esquerdistas como o ativista LGBT Jean Wyllys diriam que os esquerdistas é que se parecem com os conservadores) quando o assunto é a educação sexual das filhas, a vida sexual da empregada, o acesso a conteúdo adulto do vizinho. Agora não temos muitos políticos conservadores parecendo a voz da sensatez, da ética e da coerência na redação e na aplicação das leis. Quando os conservadores, inclusive os políticos, falam de justiça, a regra geral é pregar a prisão de um esquerdista, a proibição de mulheres em poses sensuais na televisão ou a morte de tarados. Como em vários outros aspectos, os conservadores aqui ficaram na insignificância e no opróbio até que a esquerda pareceu ainda mais louca.

Então, nós não temos um risco de absurdos judiciais acontecerem contra qualquer cidadão porque aconteceram contra Lula; era ele, esse tempo todo, que teve o risco de acontecer com ele o que aconteceu ou podia ter acontecido contra qualquer um.

NOTAS:

[01] "Tribunal confirma condenação de Lula no caso tríplex", Folha de São Paulo, 24 de janeiro de 2018, https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/01/1952994-tribunal-confirma-condenacao-de-lula-no-caso-triplex.shtml.

[02] "O É da Coisa, com Reinaldo Azevedo - 26/01/2018", Rádio BandNews FM, https://www.youtube.com/watch?v=lkQzzX2Bw_Q, 14:40 a 14:44.

[03] "As mulheres odeiam ser criticadas 5: minha carta para a Polícia Federal sobre o Sílvio Denorex", A Vez das Mulheres de Verdade, 27 de janeiro de 2012, http://avezdasmulheres.blogspot.com/2012/01/as-mulheres-odeiam-ser-criticadas-5.html.

[04] "'Minha convicção é de que houve estupro', diz delegada sobre denúncia de jovem", Extra, 30 de maio de 2016, https://extra.globo.com/casos-de-policia/minha-conviccao-de-que-houve-estupro-diz-delegada-sobre-denuncia-de-jovem-19400689.html.

[05]

Superior Tribunal de Justiça (STJ)

31 de maio de 2016 às 19:58

O STJ já decidiu que, em se tratando de delitos sexuais, a palavra da vítima tem alto valor probatório, considerando que crimes dessa natureza geralmente não deixam vestígios e, em regra, tampouco contam com testemunhas.

Não se cale, denuncie! Disque 180.

Para ver outras decisões do STJ sobre Valor Probatório da Palavra da Vítima acesse o tema em nossa Pesquisa Pronta: http://ow.ly/ZTR5300Moyr

#PraCegoVer : foto de uma mulher falando com um megafone e o texto acima "ESTUPRO. Palavra da vítima vale como prova em crimes contra liberdade sexual".

https://www.facebook.com/stjnoticias/photos/a.10150813555331852.397476.122690696851/10153471769581852

[06] "Supremo decide que cotas raciais são constitucionais", Consultor Jurídico, 26 de abril de 2012, https://www.conjur.com.br/2012-abr-26/supremo-tribunal-federal-decide-cotas-raciais-sao-constitucionais.

[07] "Teto constitucional incide em cada cargo nos casos em que é permitida a acumulação, decide STF", Notícias STF, 27 de abril de 2017, http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=341877.

[08] "Perícia aponta mais de 50 cortes em áudio Joesley-Temer. É o fim!", Reinaldo Azevedo, Veja, 19 de maio de 2017, http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/pericia-aponta-mais-de-50-cortes-em-audio-joesley-temer-e-o-fim.

[09] "STF anula provas contra ex-senador Demóstenes Torres", Veja, 25 de outubro de 2016, http://veja.abril.com.br/brasil/stf-anula-provas-contra-ex-senador-demostenes-torres.

[10] "Estupro de vulnerável não exige contato físico entre agressor e vítima", Consultor Jurídico, 04 de agosto de 2016, http://www.conjur.com.br/2016-ago-04/estupro-vulneravel-nao-exige-contato-entre-agressor-vitima.

[11] "Desacato a autoridade de gênero: homem é condenado por dar uma cotovelada em uma mulher alcoolizada (e a insanidade jornalística no caso)", A Vez das Mulheres de Verdade, 19 de agosto de 2015, http://avezdasmulheres.blogspot.com/2015/08/desacato-autoridade-de-genero-homem-e.html.

[12] "Marielle Franco virou palanque politico", Etnia Brasileira por Lívia Zaruty, 16 de março de 2018, https://www.youtube.com/watch?v=3vSO0O7e5HE, 03:30 a 04:13.

[13]"A censura chegou no brasil - fui processada? (caso Marielle)", Etnia Brasileira por Lívia Zaruty, 25 de março de 2018, https://www.youtube.com/watch?v=crunueXrhIg.

[14] "Falsa denúncia deixa homem inocente preso cinco meses por erro de julgamento da ju...menta da denunciante", A Vez das Mulheres de Verdade, 04 de maio de 2013, http://avezdasmulheres.blogspot.com/2013/05/falsa-denuncia-deixa-homem-inocente.html.

[15] Comentário em "Em que país a Constituição corre o risco de de ser declarada… bem, inconstitucional??? Engenheiros constitucionais em ação!!!", Reinaldo Azevedo, 10 de abril de 2018, http://www3.redetv.uol.com.br/blog/reinaldo/em-que-pais-a-constituicao-corre-o-risco-de-de-ser-declarada-bem-inconstitucional-engenheiros-constitucional-estao-em-acao/?fb_comment_id=1627065184048737_1627143200707602.

[16] "Os 'pensadores' que deveriam ir ao velório do cinegrafista da Band, a carta de sua filha e as declarações da viúva", Felipe Moura Brasil, 16 de fevereiro de 2017, https://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil/os-8220-pensadores-8221-que-deveriam-ir-ao-velorio-do-cinegrafista-da-band-a-carta-de-sua-filha-e-as-declaracoes-da-viuva.

[17]

O pastor Silas Malafaia, uma figura que dispensa maiores apresentações, acabou de colocar no Twitter dele um desafio pra debater comigo ao vivo, pra eu parar de falar asneiras no programa de rádio, "sozinho é mole, deixa de ser falastrão, não incite o ódio". "Avisa ao jornalista Boechat que está falando asneira, dizendo que pastores incitam os fiéis a praticar intolerância. Verdadeiro idiota". Ô, Malafaia, vai procurar uma rola, vai. Não me enche o saco. Você é um idiota, um paspalhão, um pilantra, tomador de grana de fiel, explorador da fé alheia, e agora vai querer me processar pelo que acabei de falar. Que é que você faz? Você gosta muito é de palanque. Eu não vou te dar palanque porque tu é um otário, tu é um paspalhão. O que eu falei e repito, e não vou participar de debate com você porque eu não vou te dar confiança, é o seguinte: que é no âmbito de igrejas neopentecostais que estão acontecendo atos de incitação à intolerância religiosa. Mais do que em outros ambientes. Em nenhum momento, em nenhum momento, é pegar as minhas falas que estão todas gravadas, eu disse qualquer coisa que generalizasse esse comentário, qualquer coisa. Até porque, diferente de você, não sou um idiota. Então você é homofóbico, você é uma figura execrável, horrorosa, e que toma dinheiro das pessoas a partir da fé. Você é rico. Eu não sou rico porque tomei dinheiro das pessoas pregando salvação depois da morte. O meu salário, os meus bens, o meu patrimônio veio do meu suor, não veio do suor alheio. Você é um charlatão, cara, que usa o nome de Deus, de Cristo, pra tomar dinheiro de fiéis. Você é tomador de grana, você e muitos outros. Tenho medo de você não, seu otário. Vai procurar uma rola, repetindo em português bem claro.

(https://www.youtube.com/watch?v=Dq3PvGnmS9A&t=2m30s. Transcrição de 22 de junho de 2015)

[18] "Ministério Público pede indenização do SBT por comentário de Rachel Sheherazade", Pragmatismo Político, 08 de junho de 2017, https://www.pragmatismopolitico.com.br/2017/06/ministerio-publico-indenizacao-sbt-rachel-sheherazade.html.

[19] Olavo de Carvalho, 16 de dezembro de 2014, https://www.facebook.com/carvalho.olavo/photos/a.275188992633182.1073741828.275181425967272/417831648368915. Também no blogue O Retrógrado em http://www.oretrogrado.com.br/2016/06/22/olavo-escreve-para-reinaldo-azevedo-em-defesa-de-bolsonaro.

[20] "Sala onde Lula ficará na PF em Curitiba não tem grades na porta", G1, 06 de abril de 2018, http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2018/04/sala-onde-lula-ficara-na-pf-em-curitiba-nao-tem-grades-na-porta.html.

[21] "Justiça proíbe crianças no comando do 'Bom dia e Cia', do SBT", Ego, 15 de julho de 2015, http://ego.globo.com/televisao/noticia/2015/07/justica-proibe-criancas-de-apresentarem-programa-infantil.html.

segunda-feira, 26 de março de 2018

O estranho caso de Juliano Vieira Pimentel de Souza

Abigail Pereira Aranha

Quem é o homem que confessou ter matado Naiara em Caxias do Sul

Homem também confessou outro estupro ocorrido em outubro do ano passado

24/03/2018 | 12h34 Atualizada em 24/03/2018 | 13h37

Quem é o homem que confessou ter matado Naiara em Caxias do Sul reprodução/Facebook

Juliano Vieira Pimentel raptou Naiara Soares Gomes no dia 9 enquanto ela caminhava em direção à escola

Foto: reprodução / Facebook

Lizie AntonelloLizie Antonello

lizie.antonello@pioneiro.com

Juliano Vieira Pimentel, 31 anos, preso na tarde da última quarta-feira e que confessou ter raptado, estuprado e matado Naiara Soares Gomes, 7 anos, que estava desaparecida desde o dia 9 deste mês em Caxias do Sul, é natural de Vacaria, mas morava já há anos em Caxias. Há cerca de seis meses mudou-se com a mulher para uma casa alugada no bairro Serrano - dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Na garagem, guardava o carro comprado recentemente: um Palio branco, que norteou toda a investigação da Polícia Civil sobre o caso.

O aluguel no novo endereço foi tratado direto com os donos, "de boca" (sem contrato), e os R$ 400 sempre foram pagos rigorosamente em dia. Segundo a polícia, mantinha o mesmo emprego de operador de máquinas desde 2013, com conduta profissional irrepreensível.

— Era uma pessoa que tinha uma vida muito regrada no tocante ao trabalho, excelente servidor na empresa em que trabalhava. Desde 2013 trabalhava nesta empresa. Só a criminologia pode explicar o porquê dele pegar as meninas. São dois casos, mas não descartamos outros — disse o delegado regional da Polícia Civil, Paulo Roberto Rosa da Silva.

À época do sumiço de Naiara, ele trabalhava das 17h às 2h. Na semana seguinte, conseguiu transferência para o turno diurno.

Sem suspeitas também era a vida dele em casa com a mulher e na comunidade — eles não têm filhos. Vizinhos relataram que era "uma pessoa trabalhadora".

— Nós ficamos apavorados. Estamos até agora. Nunca desconfiamos. Ele não demonstrava — disse uma moradora.

Ninguém percebeu movimento de crianças na casa onde ele mora. Tanto que crianças pequenas, filhos de vizinhos, frequentavam a moradia.

— Eu ia na casa com minha netinha conversar com a mulher, que gosta muito de criança. Até agora (quarta-feira), a gente não acredita — contou uma moradora da redondeza.

— Aparentemente, pessoa boa. Não via nele nada de diferente, que fosse maldoso. Mas, começa a passar um monte de coisa pela cabeça... que poderia ser minha filha. A gente não pode, realmente, confiar em ninguém — acrescentou uma vizinha que tem duas filhas, uma de oito e outra de um ano.

O proprietário de um estabelecimento próximo, do qual Pimentel era cliente, também afirma desconhecer detalhes sobre a vida dele. Ainda assim, comenta que pessoas que pegavam ônibus com o homem para ir ao trabalho passaram a suspeitar do seu comportamento nas últimas semanas.

— Ele vinha aqui (no estabelecimento), mas nunca entrou em detalhes sobre a própria vida. Parecia uma pessoa tranquila. Mas os caras que pegavam o ônibus com ele me contaram que ele estava agindo de um modo muito estranho e tinha até pedido para ser transferido de turno — relata.

Para os demais vizinhos, prevalecia o tom de surpresa, embora todos os abordados pela reportagem assegurassem pouco saber sobre a intimidade do autor confesso.

— Era bem discreto. Só víamos saindo ou chegando em casa ou fazendo trabalhinhos no próprio terreno, como cortar a grama. É chocante. Não imaginamos que uma pessoa dessas possa estar na porta ao lado — ressaltou outro empresário das imediações que preferiu não se identificar.

A mulher de Pimentel mudou para outro local e a casa onde morava o casal foi desmanchada por iniciativa dos donos na última sexta-feira. A polícia disse, à reportagem, que o imóvel havia sido liberado depois do levantamento feito ainda no dia da prisão. Em depoimento, a mulher falou que desconhecia os crimes confessados pelo marido.

Inicialmente, Pimentel foi levado para o Presídio Regional de Caxias, mas foi transferido no dia seguinte para uma outra penitenciária do Estado.

Segundo o delegado que conduz o caso, Caio Márcio Fernandes, "a ideia é fechar o inquérito anterior" sobre o abuso que ele confessou ter cometido em outubro do ano passado contra uma menina que à época tinha oito anos. 

— Mas, possivelmente, num prazo não muito distante um do outro, concluiremos também o da Naiara — disse o delegado. 

Ao concluir o primeiro procedimento, a polícia pedirá a prisão preventiva, o que deve garantir que ele fique preso até o julgamento.

Pimentel deve ser indiciado por estupro de vulnerável, homicídio qualificado (as qualificadoras ainda serão determinadas conforme a causa da morte) e ocultação de cadáver. A pena é aumentada por se tratar de vítima criança.

Após o caso de 2017, o Instituto-Geral de Perícias fez um retrato falado do suspeito com base na descrição da vítima. Porém, não houve denúncias a partir da divulgação, mesmo Pimentel tendo uma característica física peculiar, o estrabismo.

Após caso registrado em outubro, polícia divulgou retrato falado do então suspeito

Foto: Instituto Geral de Perícias / Divulgação

"Quem é o homem que confessou ter matado Naiara em Caxias do Sul", Pioneiro, 24 de março de 2018, http://pioneiro.clicrbs.com.br/rs/geral/policia/noticia/2018/03/quem-e-o-homem-que-confessou-ter-matado-naiara-em-caxias-do-sul-10198286.html.

As coisas estranhas

1) Que o rapto da Naiara tenha acontecido justo no dia em que o primo dela só a acompanhou até o meio do trajeto, vá lá. Mas como tudo isso aconteceu justo num ponto cego de câmeras de segurança?[01] E por que as testemunhas mencionaram não uma pessoa, mas um carro?[02] "A suspeita sobre o carro branco surgiu no relato de duas testemunhas, que apontaram ter visto a menina próximo a um veículo com estas características na Rua Júlio Calegari."

2) Seis dias antes, uma prima e uma tia da Naiara deram entrevista ao mesmo Pioneiro parecendo que não faziam a menor ideia de o que aconteceu.[03] Quatro dias depois, segundo matéria da StudioFM (quando o acusado já estava preso), "o homem atuava como um predador e ia para as ruas premeditado a raptar crianças. Seu alvos prediletos eram meninas de menos 10 anos que seguiam sozinhas para a escola."[04] Havia um tarado à solta e ninguém disse nada? E por que ele só foi acusado deste e de um outro caso de abuso sexual de criança?

3) Como a polícia foi de uma menção a um carro branco para o culpado confessando o crime em três dias?[05] "'Em cima de um detalhe que ele [carro] tem no lado direito, na parte traseira, e no vidro traseiro também. Assim chegamos a um determinado veículo. Quem é o proprietário? Coincidiu com esse cidadão', explicou o delegado regional Paulo Roberto Rosa da Silva."

4) Matéria do G1 do dia 21 às 22:32, atualizada no dia 22 às 10:23: "'O corpo dela estava em um banhado, no mato, já em estado de decomposição', relata o delegado. Não havia sinais de violência."[06] Matéria da Rádio Caxias, dia 22 às 12:20: "O depoimento prestado pelo suspeito, Juliano Vieira Pimentel de Souza, 31 anos, na noite de ontem, revelou com detalhes como a menina foi morta. (...). Com facilidade, ele estuprou a criança, que mesmo semiconsciente reagiu e tentou gritar, mas imediatamente foi contida por uma camiseta sendo colocada sobre a boca, enquanto seguia a prática sexual. Nos momentos seguintes percebeu que a menina respirava com dificuldades, e que o corpo estava mole."[07]

5) "Ninguém percebeu movimento de crianças na casa onde ele mora. Tanto que crianças pequenas, filhos de vizinhos, frequentavam a moradia". Na mesma casa onde aconteceu o crime.

6) De acordo com o portal LEOUVE, "ele teria aproveitado uma viagem da companheira e da filha para abusar sexualmente de Nayara, na casa da família".[08] De acordo com a Rádio Caxias, "na manhã do desaparecimento de Naiara, ele teria levado a esposa e a filha para um culto religioso, no bairro Esplanada e encontrado a menina na rua, quando fez a abordagem à vitima".[09] E as duas matérias são do mesmo dia, 21.

7) "Casa onde morava autor confesso de estuprar e matar Naiara é demolida em Caxias do Sul".[10] De acordo com matéria do Pioneiro do dia 23, "a iniciativa de demolir partiu dos donos do imóvel, que haviam alugado a casa para o investigado há cerca de seis meses. Desde que o homem foi preso, circulam ameaças em redes sociais para incendiar o imóvel." Mas no dia anterior, não tinha sido só ameaça, a casa já havia sido incendiada.[11]

8) Pesquisa via Google Maps: da rua Armindo Luiz Rech, no bairro Serrano, onde morava o acusado, até a rua Júlio Calegari, no bairro Esplanada, de onde a menina desapareceu, são 15 ou 16 km; da rua Armindo Luiz Rech até a represa do Faxinal, onde o corpo foi encontrado, são uns 10 km; da rua Júlio Calegari até a represa do Faxinal são uns 25 km. Com quase duas semanas do desaparecimento, o acusado aparece do nada confessando o crime e mostrando onde está o corpo, num lugar onde não seria achado tão cedo e já com a polícia atrás dele (o acusado).

Antes de fazer os meus comentários, eu vou copiar o comentário que eu fiz no vídeo "Teste para detectar possíveis pedófilos nas ruas do Brasil causa polêmica", Jornal Folha do Povo, 08 de janeiro de 2016[12]:

O legal é que, sem ter visto esse vídeo, eu publiquei um texto sobre o assunto NO MESMO DIA: "Seis e dezesseis", https://avezdasmulheres.blogspot.com/2016/01/seis-e-dezesseis-ou-direita-crista.html O problema começa com a confusão de pedofilia com sexo com adolescente. Se a "adolescente de 13 anos" tivesse aceitado as propostas, ela seria biologicamente capaz de ir em frente.

Ah, e já houve um caso de um rapaz que tinha uma namorada de 13 anos que foi condenado por estupro (contra a namorada), só por ela ser menor de 14.[13] Até onde vocês vão protegendo as suas filhas adolescentes da heterossexualidade masculina que vocês acham ofensiva PRA VOCÊS MESMOS?

Nos Estados Unidos, a atriz podia ser uma policial se passando por prostituta para PRENDER homens que procuram uma prostituta ADULTA. Enquanto isso, Donald Trump tem de se explicar por ter cometido adultério com uma atriz pornô e uma coelhinha da Playboy.[14]

Agora, de volta ao caso Juliano. Eu já escrevi em junho de 2015: "Esqueça a pedofilia, o perigo é outro".[15] Prefiro não tentar resumir aqui o que eu disse nesse texto ou no "Seis e dezesseis", que eu citei há pouco. Só adianto que interesse sexual por crianças é inverossímil (lá eu explico por que, a conversa é longa). E como se eu já não tivesse visto casos de falsas denúncias de sexo com crianças acabando em agressões, prisões arbitrárias ou morte, e casos estes contados na imprensa tradicional, eu vi este caso e já me soou meio mal contada a história.

A paranoia do estupro (de mulher por homem), a demonização do estupro (de mulher por homem) e o incentivo prático das falsas denúncias de estupro (de mulher contra homem) são um ataque ao homem mediano (não, lésbica imbecil, praticar a heterossexualidade não é ser estuprador nem vice-versa). O combate à pedofilia, incluindo a confusão do próprio conceito da pedofilia, é outro ataque. Sexo de homens adultos com meninas de 12 ou 13 anos não é pedofilia, é sexo com adolescente, idade em que muitas mulheres estavam casadas há uns 100 anos atrás. Se a lei não sabe a diferença entre comer uma menina de 13 anos e uma de 7, a lei é confusa, o que não transforma a burrice em algo respeitável. A criminalização do sexo de homens com meninas adolescentes tem a mesma raiz da criminalização do sexo como um todo. E a publicidade de casos reais, suspeitos, imaginados ou inventados de sexo de homens com crianças já não é a demonização do sexo, é a demonização do homem. Não é por acaso que a Liga Cristã Juvenil Antissexo tagarela que a pornografia leva à pedofilia e ao abuso sexual de crianças (veja bem, são duas coisas diferentes). Também não é por acaso que casos reais, suspeitos, imaginados ou inventados de abusos sexuais de crianças por mulheres são proporcionalmente muito menos divulgados. Se isso te parece estranho, eu te chamo a voltar àquela matéria do início do texto: por que a autora descreve o suposto estuprador de uma criança como um homem comum? Não digo que ela tenha feito isso por ser uma lesbofeminista, mas, na melhor das hipóteses, porque realmente acredita que o homem comum que ela descreve pode estuprar uma criança de 7 anos, uma adolescente de 13, uma adolescente de 17 ou uma mulher adulta, desde que ele não seja gay.

E por que um conservador dificilmente vai fazer essa análise que eu fiz ou sequer ler o que eu disse? Porque o homem conservador não é um homem, é um protetor de mulheres e crianças. O papel dele, pelos valores conservadores, é defender mulheres e crianças (não necessariamente esposa, mãe, irmã e filhos), estar atento a qualquer suposta ameaça como um cachorro quando vê uma pessoa diferente na casa dos donos. Na Bíblia, uma mulher briga por Deus, pelo povo de Deus, pelo marido ou pelo filho; um homem pode brigar para defender uma mulher estranha, como Daniel fez por Suzana em Daniel 13, ou porque uma mulher estranha foi estuprada, como 11 tribos de Israel guerrearam contra uma em Juízes 20. O problema aqui é que os próprios homens desumanizam outros homens pela simples acusação de sexo ou tentativa de sexo com uma mulher, como aconteceu com José quando foi acusado de tentativa de estupro pela mulher de Potifar. Em vez de uma mulher, pode ser uma criança.

Mas esse caso (o caso Juliano, não o caso Naiara) me cheira a mistura de Héberson Lima de Oliveira com Irmãos Naves. Se o Juliano for inocente e foi obrigado a confessar o crime, e se a esquerda pegar o caso, será uma vergonha para a turma do "bandido bom é bandido morto".

NOTAS:

[01] "Polícia investiga se menina desaparecida em Caxias do Sul foi levada por carro branco", G1, 13 de março de 2018, https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/policia-investiga-se-menina-desaparecida-em-caxias-do-sul-foi-levada-por-carro-branco.ghtml.

[02] "Polícia relaciona carro branco com o desaparecimento de menina em Caxias", Gaúcha ZH, 13 de março de 2018, https://gauchazh.clicrbs.com.br/seguranca/noticia/2018/03/policia-relaciona-carro-branco-com-o-desaparecimento-de-menina-em-caxias-cjeq2nb3i01co01p48lfkej8w.html.

[03] "'Fazemos as buscas no mato esperando não encontrá-la', afirma prima de menina desaparecida em Caxias", Pioneiro, 18 de março de 2018, http://pioneiro.clicrbs.com.br/rs/geral/policia/noticia/2018/03/fazemos-as-buscas-no-mato-esperando-nao-encontra-la-afirma-prima-de-menina-desaparecida-em-caxias-10193006.html.

[04] "Saiba como foi o depoimento colido do acusado de ter raptado, estuprado e matado menina Naiara", StudioFM, 22 de março de 2018, https://www.studio.fm.br/2018/03/saiba-como-foi-o-depoimento-colido-do-acusado-de-ter-raptado-estuprado-e-matado-menina-naiara.

[05] "Polícia encontra corpo de menina de 7 anos desaparecida e prende suspeito em Caxias do Sul", G1, 21 de março de 2018, https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/policia-encontra-corpo-de-menina-de-7-anos-desaparecida-e-prende-suspeito-em-caxias-do-sul.ghtml.

[06] "Grupo pede justiça após corpo de Naiara ser encontrado em Caxias do Sul", G1, 21 de março de 2018 22:32, atualizado 22 de março de 2018 10:23, https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/grupo-pede-justica-apos-corpo-de-naiara-ser-encontrado-em-caxias-do-sul.ghtml.

[07] "Caso Naiara: autor confessa com detalhes como matou a menina no mesmo dia do desaparecimento", Rádio Caxias, 22 de março de 2018, http://www.radiocaxias.com.br/portal/noticias/caso-naiara-autor-confessa-com-detalhes-como-matou-a-menina-no-mesmo-dia-do-desaparecimento-86770.

[08] "Suspeito de matar e ocultar corpo da menina Nayara é identificado", LEOUVE, 21 de março de 2018, http://leouve.com.br/suspeito-de-matar-e-ocultar-corpo-da-menina-nayara-e-identificado.

[09] "Força-tarefa da Polícia Civil esclarece desaparecimento da menina Naiara Gomes", Rádio Caxias, 21 de março de 2018, http://www.radiocaxias.com.br/portal/noticias/forcatarefa-da-policia-civil-esclarece-desaparecimento-da-menina-naiara-gomes-86742.

[10] "Casa onde morava autor confesso de estuprar e matar Naiara é demolida em Caxias do Sul", Pioneiro, 23 de março de 2018, http://pioneiro.clicrbs.com.br/rs/geral/noticia/2018/03/casa-onde-morava-autor-confesso-de-estuprar-e-matar-naiara-e-demolida-em-caxias-do-sul-10197458.html.

[11] "Casa de suspeito da morte de Naiara Gomes é alvo de tentativa de incêndio", Rádio Caxias, 22 de março de 2018, http://www.radiocaxias.com.br/portal/noticias/casa-de-suspeito-da-morte-de-nayara-gomes-e-incendiada-86751.

[12] https://www.youtube.com/watch?v=1ZOA1uvMkGE&lc=UgwH2c8tXWqIKJbkSiN4AaABAg

[13] "Por estupro de namorada de 13 anos, jovem é condenado a 8 anos de prisão", Midiamax, 05 de setembro de 2017, https://www.midiamax.com.br/por-estupro-de-namorada-de-13-anos-jovem-e-condenado-a-8-anos-de-prisao.

[14] "Ex-modelo da Playboy vai à Justiça para falar sobre caso com Trump", Notícias ao Minuto Brasil, 20 de março de 2018, https://www.noticiasaominuto.com.br/mundo/566014/ex-modelo-da-playboy-vai-a-justica-para-falar-sobre-caso-com-trump.

[15] "Esqueça a pedofilia, o perigo é outro", 08 de junho de 2015, A Vez das Mulheres de Verdade, http://avezdasmulheres.blogspot.com/2015/06/esqueca-pedofilia-o-perigo-e-outro.html; e A Vez dos Homens que Prestam, https://avezdoshomens.blogspot.com/2015/06/esqueca-pedofilia-o-perigo-e-outro.html.

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